Do pé ao topo, dos turistas aos deuses

Antes de amanhecer nesta cidade que só vimos ainda no escuro, e ainda assim já revelou tantas surpresas, quero contar uma história sobre como e com quem chegamos lá.

*********

O longo e cansativo trajeto BH-Roma terminou depois de quase um dia de viagem e ainda faltava um último trecho: Roma-Atenas, pela Alitália. Ainda no embarque do aeroporto Leonardo da Vinci – Fiumicino, um casal chamou nossa atenção. A mim, pela evidente cara de brasileiros que tinham (impressionante como a gente se reconhece!). Ao Leandro, por uma camisa. O cara vestia a camisa do Bahia, time de boa parte da família de Leandro (para quem não sabe, esse branquelo de olhos verdes é um baiano de coração. Nascido e criado em BH, porém filho de uma baiana legítima, Leandro carrega Salvador no sangue, na alma, no ritmo, na leveza da vida).

Seguimos o casal com os olhos, sempre perdendo e reencontrando dentro dos trâmites naturais do processo: embarque, voo, desembarque, a busca ansiosa pelas malas, a saída de um terminal e entrada num país estranho, de língua mais estranha ainda, a tentativa de encontrar informações sobre o hotel e o melhor traslado. Veio a calhar que a melhor maneira, e mais barata, de se sair do aeroporto de Atenas e chegar a qualquer ponto da cidade é via metrô(1). E foi lá, ao entrar no vagão que escolhemos, que Leandro me solta o grito contido na garganta desde Roma: “Bora Bahea, minha porra!” Acredito que ninguém mais naquele vagão compreenderia (mesmo se houvesse brasileiros) o xingamento carinhoso que Leandro fez, melhor do que o baiano que estava justo na nossa frente. Ele levantou os olhos, sorriu e veio nos cumprimentar. Trocaram tapas nas costas, descobriram afinidades baianas e internacionais. Conversamos sobre o campeonato brasileiro da segunda divisão e o trajeto de viagem de cada casal, deciframos o mapa do metrô, que parecia falar grego, ficamos amigos ali, instantaneamente. Antes de saltarem, avisaram que pretendiam conhecer a Acropóle no dia seguinte de manhã. Quem sabe nos encontraríamos por lá?

Estava formado a quadra – Lázaro, Carla, eu e Leandro na fotografia

A nossa primeira noite vocês já conhecem. Será que o primeiro dia faria jus ao encantamento da perfeita noite anterior? O primeiro desafio era acordar em seis horas de fuso. Mas subir de novo ao terraço para o café da manhã com vista para a Acrópole compensou tudo. De lá, vendo a cidade derramada aos nossos pés, fizemos planos. A começar, é claro, pelo famoso monte que estava ali, ao alcance da vista e dos pés, cujo caminho já até conhecíamos.

De novo ela estava lá, e ainda reluzente

Não vou dizer que escolhemos o lado do Teatro de Dionísio para começar a subir, porque a verdade é que não tínhamos ideia do que estávamos fazendo. Eu só entendia que estava vendo o Parthenon ali no alto e queria chegar lá, de alguma maneira… Enfim, vimos uma bilheteria, compramos o dito-cujo(2) e entramos.

Em peregrinação ao passado.

Na subida para a Acrópole, a altura do silêncio que uma história de 2500 anos impõe ali não é quebrada pela torre de babel dos turistas circulando ao seu redor. O volume intenso e irrequieto, que me arrepiava e até hoje me lembro como se estivesse ouvindo, era das cigarras que se escondiam entre os galhos de oliveiras. Sim, oliveiras. Aos montes. A Grécia realmente surpreende, exatamente por te entregar aquilo que você quer ver, de mão beijada. As oliveiras tinham até azeitonas penduradas em seus galhos, meu Deus! E estavam ali, como se nascessem pelo simples prazer de agradar. Não aos turistas, mas sim à sua deusa Atena que, reza a lenda, ganhou de Poseidon o poder de ser patrona daquela cidade que nascia e florescia à beira do mar. Na escolha de que deus iria ter a honra, cada um precisava dar um presente à cidade. Poseidon deu, então, a brisa do mar. Mas Atena presenteou a cidade com uma árvore, que daria frutos e óleo e protegeria as casas e templos que a tivessem plantada na sua porta. E foi assim que a cidade foi nomeada Atenas e na entrada do monumental pórtico da Acrópole, o Propileus, foi plantada uma oliveira (que, infelizmente, não está mais lá).

O lendário fruto de oliva.

Primeiro, então, alcançamos o Teatro de Dionísio. Sempre fui fã secreta desse deus das festas, do vinho e da boa vida. O que deve ter sido um imenso teatro, do qual ainda vemos a arena, a boca do palco com suas esculturas, a arquibancada, as cadeiras das grandes personalidades da época, deve também ter sido testemunha do que Dionísio representava.

Teatro de Dionísio
As famosas esculturas da boca de cena
Poltrona de mármore para as personalidades

Seguindo em frente, o outro teatro, de Herodes Ático, é ainda mais imponente. Foi construído em 161 d.C, mas o que vemos hoje é uma restauração de 1955, fazendo do local perfeito para ser usado em concertos ao ar livre. Infelizmente, nenhum que pudemos presenciar. Nos restou admirar pelo lado de fora ou pelo alto.

Teatro de Herodes Ático

Mais um trecho do caminho que se chamava Peripatos, usado desde aqueles tempos para circundar a Acrópole, e… voilá. Ali estava o Propileus. Aí sim, os turistas faziam poluição, sonora e visual, todos lutando pelo mesmo objetivo: uma foto digna de porta-retrato (ou de protetor de tela, nos dias atuais). Mas não podíamos esperar outra coisa de um dos maiores e mais antigos monumentos do mundo.

Triste é depender de outros turistas – que não sabem enquadrar – para tirar a foto do casal
Ali ao lado, em algum lugar, conta-se que havia uma oliveira.

Dali para o Parthenon, alguns passos nos separavam da privilegiada visão. Um dos edifícios mais famosos da história foi construído no século 5 antes de Cristo, fundamentalmente para abrigar a Parthenos, que dizem ter sido uma impressionante estátua de Atena de 2m de altura, coberta de marfim e ouro. Tantos séculos e guerras depois, qual é a chance dela ainda existir?

A primeira e emocionante visão do Parthenon

Por mais que a rainha das construções da Antiguidade Clássica ainda guarde a sua majestade, dá uma certa dor no coração vê-la tão escorada pelos andaimes e aparatos da sua restauração. Que, talvez, seja eterna. Tanto ela quanto a restauração. Talvez seja mais um caso do paciente que não pode nunca mais se desligar dos seus aparelhos. E nem receber visitas. Ficamos assim, então, maravilhados, mas observando de fora, sem poder subir os degraus, adentrar as colunas, tocar naquele pedaço de história. Melhor assim. Imagine se todos pudessem. Afinal, vem de longe a vocação turística, quase que de peregrinação, deste lugar sagrado.

Muletas e cirurgias para a rainha, que envelheceu mas não perdeu a clássica beleza.

Chegamos à Acropole no final da manhã e investimos quanto tempo fosse necessário para conhecer tudo(3), prestando o devido respeito aos deuses olímpicos e à História. Certamente tínhamos nos desencontrado de Lázaro e Carla. Que nada. Quando menos esperávamos, vi pela primeira vez a sombrinha estampada de Roma, que nos acompanharia por toda Atenas, e ouvimos o inconfundível sotaque baiano nos chamando. É porque tinha que ser.

O inesperado reencontro
Dicas para o viajante do futuro:
(1)   O metrô de Atenas é moderno e bem distribuído entre aeroporto, localização dos hotéis e principais pontos turísticos, uma boa herança dos jogos olímpicos de 2004. A passagem desde o aeroporto custou 5 euros por pessoa e o trecho durou cerca de 30 minutos até a estação Acropolis, a um quarteirão do Hotel Athens Gate. Mas dentro da cidade, a passagem custa 1 euro (50 centavos para estudantes) e vale durante 90 minutos. O nome das estações está escrito em grego, mas também em alfabeto romano, o que é um bom início de adaptação à escrita esquisita.
(2)   O bilhete custa 12 euros e é vendido nas bilheterias de vários sítios arqueológicos (todos a céu aberto) de Atenas. A grande barbada é que, com o mesmo bilhete, você visita todos esses lugares: Acropolis, Teatro de Dionísio, Ágora Antiga, Ágora Romana, Templo do Zeus Olímpico, Arco de Adriano, Kerameikos.
(3)   “Tudo” inclui outros templos, em menor escala, mas também maravilhosos, como o Erecteion, com suas estátuas Cariátides, e o templo de Atena Nike, a deusa da vitória. Além, é claro, da maravilhosa visão da cidade, incluindo nosso hotel e o terraço do café da manhã.
Templo de Atena Nike e Atenas ao fundo

Outro ângulo para o Parthenon – os fundos
Colunas gregas
Erecteion e suas Cariátides

Templo de Atena Nike
“Oh céus!”
As Cariátides

Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.
 
A seguir, num post próximo de você: o que Atenas esconde nas suas ruelas e pracinhas; o desperdício Olímpico; a multa!; o tão esperado cruzeiro.
Anúncios

3 comentários Adicione o seu

  1. Parabéns pelo post! Adorei as fotos e ter estado em Atenas deve ter sido muito emocionante!
    Em que bairros vocês ficaram?

    1. Luísa Rennó disse:

      Oi Thamires! Bem vinda ao blog! Fico feliz que tenha gostado. A Grécia é simplesmente sensacional. Em Atenas, nos hospedamos no Athens Gate (que tinha um preço promocional imperdível no dia em que fui fazer a reserva via hoteis.com), que fica na região da Acropolis, bem ao pé do morro onde está um dos mais incríveis monumentos do mundo. Eu sempre sugiro aos amigos que me perguntam ficar em Plaka, o bairro ao lado da Acropolis que é uma delícia. Abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s