Companheiras de viagem

Ao nos desviarmos um pouquinho da rota, aviso a todos os tripulantes que não se preocupem, Atenas continua lá, onde sempre esteve, fisicamente e memorialmente. Em outras palavras, voltaremos em breve ao roteiro original, onde ainda estamos em Atenas, mas logo seguiremos pela Grécia, terra e mar, muito mar. Depois Turquia. E então Roma.

Se faço essa pequena pausa é porque a vida às vezes nos impõe outras pequenas viagens. viagens de cada dia. Internas ou externas, para o interior ou só para exteriorar algo que não quer calar. Enfim, saber mudar o roteiro é uma das coisas mais difíceis, e também saudáveis, que eu conheço.

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_ Eu queria dizer que… estou sofrendo. Falei.

Ouviu-se um “ah, Lu… deixa disso” sem muita força ou expressão, misturado a alguns olhares tristes e baixos e risinhos nervosos enchendo a velha conhecida sala de jantar do Retiro das Pedras.

_ Eu só queria dizer.

_ Lu, você vai escrever sobre mim no seu blog?

Sim, eu ia. Eu sabia desde o princípio que seria impossível não escrever. Eu e essa minha mania de ficar elocubrando os sentimentos em forma de texto. Mas, por onde começar?

Antes de mais nada, dizer que, se falei que ao meu lado eu tinha o melhor companheiro de viagem do mundo (e estava me referindo ao Leandro), ainda não tinha tido oportunidade de falar sobre a segunda melhor companhia. E a mais antiga. Muito antes do Leandro embarcar, a Jô já estava lá no meu bonde. E, com todo o direito, sentada na janelinha.

Não sei dizer qual foi a primeira, e não quero nunca saber qual será a última. Me lembro vagamente da ilha de Itacuruçá, quando eu devia ter uns 4 anos e ela 2. Mas acho que, de verdade, as nossas primeiras viagens foram madrugada adentro, pegando juntas o fio de uma meada que não acabava nunca. De repente, não estávamos mais deitadas nas camas do quarto das meninas na casa da vovó Dalva. Já tínhamos ido embora, passeado por toda BH, viajado por lugares reais e imaginados, encontrado os conhecidos e conhecido novos amigos. Desfiando casos e imaginação por horas a  fio, a noite seria pouca se o sono não fosse maior. Invariavelmente, a Jô dormia e me deixava falando sozinha. Eu e essa minha mania de narrar tão detalhadamente.

Mas era só até o amanhecer, e começava tudo de novo. Porque sozinha mesmo, ela nunca me deixou. Nem quando foi para a Holanda passar um ano. Por e-mail a transmissão funcionava também. Só que deixava algumas falhas de narrativa que tiveram que ser minuciosamente consertadas depois. Isso significa que quase enlouquecemos vovó Dalva, andando por Paris e Amsterdã, falando sem parar, feito duas matracas. De que outra maneira colocaríamos em dia absolutamente todos os casos, acontecidos ou meramente supostos (entenda-se: fofoca), de um ano separadas?

Estar ao lado, para poder encarar de frente

Sim, viajamos muito. Se separadas, era motivo para, imediatamente depois, juntar impressões e histórias. Se juntas… ah, se estávamos juntas não precisávamos de mais nada para que o mundo todo se tornasse, de repente, perfeitamente alcançável. Mas, ainda sim, é necessário depois juntar impressões e histórias, já que a minha memória sozinha tem que servir para as duas. A da Jô, cá entre nós, não é lá muito confiável…

Quando eu embarquei na maior aventura da minha vida, o meu casamento, a Jô estava lá para abençoar, desde os primórdios, quando ela viu a primeira “aliança” que trocamos, no meio do Peru. Quando eu contei sobre a nossa viagem de lua de mel, no meio da empolgação, o olhar dela ficou distante. Perguntei o que foi. Nada, ela só queria poder ir nessa viagem também. Mas, dessa vez, realmente não dava…

Na alegria ou na tristeza, no samba e na festa.

Quando ela me contou que tinha se decidido, ia morar na Alemanha por dois anos e meio para fazer um mestrado em música, disfarcei para que ela não visse meu olhar distante. Não era nada, eu só queria poder ir nessa viagem também. (Sempre me lembrando de quando estivemos em Paris juntas e combinamos voltar um dia para morar lá ou quando dissemos que íamos alugar uma casa-barco em Amsterdã…) Mas, dessa vez, realmente não dava.

E fui segurando a ansiedade e o sofrimento antecipado por estar longe da minha grande companheira de viagem. Cada uma vivendo sua grande aventura a milhares de quilômetros de distância. Até o dia que tivemos que nos despedir. Foi quando eu tive que dizer que estava sofrendo.

Agora, só imagino como vai ser colocar a conversa em dia depois de tanto tempo assim. Quantas noites vamos encher e quantas pessoas vamos enlouquecer com a falação?

Logo depois voltaremos com a nossa programação normal.
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4 comentários Adicione o seu

  1. Lu, que post lindo! A gente lê desse amor de companheiras que vocês tem uma pela outra, mas nem de perto (ou de longe, como estou) dá para compreender o verdadeiro sentimento que traduz esses laços de tanto tempo. Enfim, compartilhe com a gente a proximidade e a distância, que mandamos força pro seu coração não sentir tanta saudade. No mais, viva a internet, que apazigua e permite atualizações de vez em sempre… Beijocas

  2. camila disse:

    que post lindo!

  3. sandra camara disse:

    Que ideia legal esse seu blog. E que bonito descobrir a riqueza dessa amizade prima de vocês duas. Consegui perceber tudo acho que porque tenho a Camila, que é minha amiga assim, com quem gostaria de estar em todas as viagens que imagino fazer, mesmo aquelas para aqui ao lado! Parabéns pelo texto bonito que vc produziu Lu e mais ainda pela grandeza dos sentimentos!

  4. Lucas Oliveira disse:

    Incrível Post.

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