Ruínas de ontem, ruínas de hoje

Sempre que estou a caminho de uma cidade com muita história para contar, fecho os olhos por um momento e começo a imaginar. Quem vai me contar essa história? As construções em pé ou as ruínas? As pessoas pelas ruas e seus costumes, suas roupas, sua língua, suas manias, ou as pessoas enceradas em um museu, como em retratos de época?

Às vezes penso que vou encontrar uma cidade tal qual ela foi em seu auge, seu momento clássico, ou até mesmo em seu declínio. Às vezes me decepciono, às vezes me surpreendo. Se me decepciono é porque preciso me desfazer de visões românticas e passivas de que a História vai se desenrolar ali, na minha frente. Culpa única e exclusivamente minha. Se me surpreendo é porque consegui dar um passo a mais (aquele passo além da fronteira, sobre o qual venho tentando falar neste blog…) e descobrir que a cidade é um organismo vivo e pulsante. Ela nunca morre. E se não morre, não poderemos dizer ao certo sobre seu período de auge ou declínio, pois só de coisas finitas podemos estabelecer início, meio e fim.

Era necessário lembrar, todo o tempo, que Atenas foi, é e ainda será. Que os gregos que ali viveram um período glorioso da História da humanidade ainda são os mesmos gregos com suas próprias histórias para contar. Por isso tudo é que fica tão difícil fechar os olhos e imaginar o que acontecia por ali. O que aconteceu de verdade é que a cidade foi sendo construída, construção sobre construção, sobre terremoto, sobre inundação, sobre guerra, século sobre século. Até hoje.

A cidade entre construções de ontem e construções de hoje.
Colunas gregas
O templo e o passar do tempo.

Foi de Lázaro a ideia de visitar algumas novas ruínas. Se digo novas, digo por dois motivos principais: primeiro porque não estavam no guia, mal estavam no mapa, nem no roteiro de ninguém; segundo porque são realmente novas – se comparadas às realmente antigas – datando de 2004 d.C.

Não foi tão simples assim chegar lá. Mas o metrô sempre ajuda, apesar das poucas indicações, especialmente turísticas. Atravessamos a cidade. Quando o trem saiu na superfície, vimos Atenas como ela realmente é, seus bairros, chiques, pobres, centrais, afastados, com seus prédios e seus varais, seus trabalhadores de todo dia e as donas de casa pendurando roupas e preparando a janta (será que eles comem moussaka, salada grega, souvlak como nós, meros turistas?).

Quando descemos na estação, fomos os únicos. Totalmente deserta, estava irreconhecível para Lázaro, que havia estado ali em 2004 e por isso quis rever. Naquela época, pessoas de todo o mundo estavam em peregrinação para uma reedição dos jogos em homenagem a Zeus e Héracles: os Jogos da XXVIII Olimpíada, a Olimpíada de Atenas.

A construção e nada mais.

Atenas não era a sede dos jogos olímpicos da Antiguidade. Olímpia sim, viu o grande festival acontecer entre os longínquos anos de 776 a.C e 393 d.C. Mas Atenas viu reflorescer a ideia. No lindo e marmorizado estádio de Panathinaikon, 108 anos antes, aconteciam os Jogos da I Olimpíada.

Estádio Panathinaikon

Em 2004, muitos não acreditavam que os gregos iriam conseguir realizar os jogos. Mas com a sabedoria de uma nação muito mais antiga do que muitas que a criticavam e a beleza de sua arquitetura histórica, os gregos ergueram monumentos e templos esportivos, tal qual faziam séculos atrás.

Os arcos do templo olímpico moderno

Mas a cidade não se reconstruiu neles. E definitivamente hoje são ruínas, tanto quanto as várias outras que encontramos pela cidade afora. Dignas de restauração. Ficou o silêncio, ficou o vazio, ficou a imponência a serviço do nada. Tanta história ontem, tanta história hoje e parece que estamos sempre querendo enterrá-la, mesmo sem querer.

Caminhamos por ali durante um tempo. UM turista apareceu. UM grego passou por nós. Bem distante dos 3,9 bilhões de pessoas de todo o mundo que observavam o local 6 anos antes, seja pessoalmente, pela televisão ou pela internet.

Depois dessa pequena peregrinação solitária, eu pedi ao grupo que me ajudasse numa tarefa. Eu e Leandro precisávamos descobrir onde ficava a rodoviária de Kifissus, de onde sairíamos daí a dois dias em direção a Lefkas, a próxima parada da nossa viagem. Teoricamente, estávamos na linha do metrô – que a esta altura já era um trem de superfície – Pireaus-Kifissia, a apenas alguns pontos de distância do final da linha em Kifissia. Ou seja, pela minha lógica de turista, fazia bastante sentido que um extremo da linha fosse o porto de Pireus e o outro a rodoviária de Kifissus. Certo? Não. Tão errado quanto seria querer ir para o bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, e ir parar em Santa Luzia, região metropolitana de BH. Apenas uma letra e um acento de diferença, mas muitos quilômetros de distância. Enfim, fomos parar em Kifissia, um bairro de casas, parecendo nobre e agradável, mas muito, muito longe de onde eu precisava ir. Numa banquinha de revistas e chocolates, uma simpática moça me explicou o erro e mostrou num mapa o que eu deveria fazer para chegar na rodoviária. Só no trem de volta percebi que o mapa de grande ajuda estava em… grego.

Dicas para você que ainda vai para lá:
 
(1)   Uma caminhadinha a pé que vale: a partir do Arco de Adriano (Hadrian’s Arch) e do Templo de Zeus do Olimpo (Temple of Olympian Zeus), dê uma passada no Estádio Panathinaiko, todo em mármore, onde as primeiras olimpíadas da atualidade foram realizadas. Não precisa entrar, por fora já dá para ver tudo. Daí, passe em frente ao Zapion e Congresso – linda construção à moda clássica – e por dentro do National Garden até chegar ao Parlamento, com seus imperdíveis guardas e os pompons no pé (deve ser a Guarda Nacional). E então você chegou à Syntagma, a praça principal e estação central do metrô de Atenas, onde as linhas se cruzam.
 
(2)   Se fizer isso no domingo, antes das dez da manhã, não perca a troca da guarda, um evento!
 
(3)   Se, como nós, você também tiver dúvidas de como chegar ao famoso bairro de Plaka (quando conto pras pessoas que tive essa dúvida, acham que somos loucos e um pouquinho retardados, porque o bairro é o mesmo por onde estivemos andando todo esse tempo), siga a placa de Plaka, ao lado do McDonalds.
 
(4)   Por falar em McDonalds, por favor, experimente o hambúrguer de camarão, que só tem no McDonalds na Grécia. Juro por Deus que é imperdível e o camarão é de verdade!
Templo do Zeus do Olimpo
Zappeion – Congresso Nacional
 
Guarda Nacional
Parlamento e Monumento ao Soldado Desconhecido
 
Praça Syntagma
 
O cartaz do tal hambúrguer de camarão
 
Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.

Cenas do próximo capítulo: uma multa?!; a caminho do mar; então essas são as famosas Ilhas Gregas!

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2 comentários Adicione o seu

  1. Parabéns pelo blog! Vou t adicionar no google Reader. Achei emocionante o post sobre tua companheira de viagem. Já me senti assim, é um dor lá no fundo do peito!
    beijos

    1. Luísa Rennó disse:

      Oi Patrícia! Uma honra ter você por aqui. Seja bem vinda sempre, a cada post que chegar no seu reader. Hoje recebi uma visitante vinda do seu blog. Ah, como fico feliz com essas coisas… típico de blogueira de primeira viagem. Mas espero que esse sentimento não suma nunca e a cada comentário eu fique tão feliz quanto fiquei no primeiro. Com você é assim? Abraços!

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