Cilada! Corra que a polícia vem aí… de metrô.

Cilada!

O viajante que nunca passou por uma cilada, dessas para pegar qualquer um no susto, que atire o primeiro guia infalível! Viagem que é viagem tem sempre aquele momento… para rir ou para chorar, para explodir de ansiedade, vergonha ou gargalhadas. Aquele justo momento em que os bobos pensam “isso não era para acontecer comigo”, enquanto os espertos acham “ainda bem que aconteceu comigo”.

Se é para aprender uma lição ou simplesmente fazer os amigos morrerem de rir com a malfadada situação, o momento Cilada! é sempre a graça de qualquer viagem.

 

Corra que a polícia vem aí… de metrô.

Brasileiros viajando pelo mundo são um povo atípico e contraditório. Lado a lado, andam duas impressões – sentidas e confirmadas pelos outros turistas e pelos próprios brasileiros – bem distantes entre si. Um povo simpático e querido por todos, diriam alguns. Um povo mal-educado e que adora tirar vantagem das situações, diriam outros. E como aquela velha expressão popular diz: “Quem tem fama, deita na cama.”

Você pode me dizer que existem turistas para todos os gostos e comportamentos. Sim, eu concordo. Mas eu, que sempre me considerei a turista da categoria “amável”, vez ou outra acabei praticando atos – pelos quais não me vanglorio nem um pouquinho – do lado negro da força… de ser brasileira.

Sem mais delongas, vamos à história.

Ao chegar no aeroporto de Atenas, descobrimos que o jeito mais prático de chegar bem perto do hotel e com poucos euros era o metrô – (já contei essa história aqui). Compramos o ticket por 5 euros (o que eu achei caro, mas era só o trecho aeroporto-centro) e procuramos onde estava a roleta. Andamos, andamos e nada. Quando vimos, estávamos dentro do vagão e com o bilhete na mão. Estranho… Para um bilhete tão caro, nenhum tipo de recolhimento, validação, verificação, medida de segurança?

Somente no dia seguinte fomos entender tudo. O bilhete é comprado numa máquina (diferente da estação do aeroporto, onde tinha uma moça num guichê) e validado numa pequena torre que fica no caminho até o embarque. Todos os passageiros devem passar por essa torre, encostar o bilhete ali e ele vai receber uma marca com o dia e o horário em que foi passado. Entendeu? Não tem catraca, não tem seguranças, não tem nada que te impeça de passar por ali sem bilhete nenhum. Civilizado, né?

Foi nesse ponto que o espírito do jeitinho brasileiro falou mais alto. Começamos a malandragem achando que não faria diferença nenhuma comprar o bilhete de estudante (0,50 centavos) ou inteiro (1 euro), já que não tinha ninguém para verificar. Depois, acabamos nos “esquecendo” de comprar bilhete em alguns momentos. (Já disse que não me orgulho nem um pouquinho dessa história, né?)

 

Estava tudo certo e a estadia em Atenas tinha sido perfeita. A esse ponto da história, eu já dominava perfeitamente o mundo subterrâneo (o mundo superior – ou seja, a rua – eu deixava para o Leandro porque aquelas ruelas de Plaka me deixavam muito confusa e perdida) e até os nomes das estações escritos em grego eu já sacava.

O que eu não saquei é que a farra alguma hora ia ter fim. E foi na estação de Omonia que eles apareceram. Ok, não foi a polícia, como o título do post sugere. E nem nós corremos deles. Mas garanto que foi um susto tremendo quando uma fiscal parou o feliz casal em lua de mel e perguntou pelos nossos tickets. Com um sorriso amarelo, tiramos dois tickets do bolso, comprados duas estações antes (eram os únicos que tínhamos!) e entregamos à dona fiscal. Ela perguntou onde compramos os tickets e eu respondi “na estação de Syntagma”, sem conseguir mentir. Para minha surpresa, ela disse “OK”. (Só aí descobrimos que os bilhetes valem por 90 minutos e, legalmente, a gente realmente não precisava comprar todas as vezes que entramos no metrô!) Mas, “cadê a carteira de estudante?” Putz, os bilhetes, ainda por cima, eram de 50 centavos! Ai ai ai.

O jeito foi dizer que as carteiras de estudante estavam no Brasil. Mas não teve jeitinho brasileiro que fizesse a mulher desistir de pegar nossos passaportes e aplicar uma bela de uma multa em cada um. 60 euros era a gracinha da multa.

Leandro queria morrer de agonia. Queria pagar imediatamente, com medo até de extradição. Sabe-se lá se os nossos números de passaporte anotados pela fiscalização do metrô grego não seriam passados para todas as fronteiras da Europa, quiçá do mundo!

Disseram que a multa poderia ser paga no escritório central do metrô, na estação de Syntagma. Com peso na consciência e toda a culpa nas costas, fomos direto para o tal escritório, pagar as devidas multas. Mas era domingo e tivemos que bater em muitas janelas fechadas, andar por muitos corredores, encarar muitos olhares inquisidores e ouvir muitos “Peraí que eu vou procurar alguém para falar com vocês.” Acho que, no final das contas, a nossa disposição para pagar era muito maior do que a deles para receber. Desconfio, inclusive, que eles nunca receberam alguém querendo pagar essa multa, tamanha era a cara deles de “não tenho ideia de como resolver isso”. Por fim, um “volta amanhã” foi tudo que conseguimos.

Mas a carapuça nos serviu tão perfeitamente que voltamos no dia seguinte, mesmo com um ônibus marcado para 11:30 da manhã na distante rodoviária de Kifissus. Só faltou a coragem de  dizer a verdade. A moça que finalmente veio conversar com a gente perguntou como quem pergunta para uma criança “porque você fez a coisa errada, se era tão mais fácil fazer a certa?” Eu tive que responder que não entendemos o grego que estava escrito na máquina e compramos o bilhete errado. Afinal, era sim muito mais fácil ter feito a coisa certa.

Saímos de lá sem ter pagado a multa e com uma recomendação apenas. Tudo que tínhamos a fazer era mandar um e-mail para o escritório do metrô, contando a nossa história e pedindo perdão pela dívida.

Com o alívio, descobrimos que sobrava tempo para mais uma visitinha, das que eu mais adoro em cidades pelo mundo afora: conhecer o mercado! O de Atenas é bem pouco turístico, frequentado pelos atenienses mesmo. Mas com lindos frutos do mar, especiarias, frutas frescas e secas e, claro, muita azeitona!

Dicas para você que ainda vai para lá:
(1)   Em honra à nossa cilada, compre o bilhete de metrô inteiro. Mas, por favor, faça valer cada um dos 90 minutos a que tem direito! Está escrita, bem clarinho no ticket, a hora em que você validou. Nos 90 minutos seguintes, pode usar e abusar.
(2)   Para o mercado de Atenas, descemos em Omonia e andamos um bocadinho a pé. Ele aparece nos mapas que nos dão nos hotéis e hostels. O interessante é que você anda por ruas onde encontra a cidade menos turística, com uma visão mais cotidiana do comércio, das pessoas e da vida por lá. Mas só vale o passeio para quem estiver com tempo e gosta muito desse tipo de programa.
(3)   Já o Mercado das Pulgas, em Monastiraki, é aquele mercado bem turístico, com itens de todos os tipos para vender, mas é divertido e vale a visita. Funciona aos domingos e feriados, mas o tipo de loja, barraquinha e produtos que você encontra lá podem ser comprados em muitos outros lugares de Plaka durante a semana.

Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.

Cenas do próximo capítulo: a caminho do mar; então essas são as famosas Ilhas Gregas!

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1 comentário Adicione o seu

  1. Catarina Nanjala disse:

    História muito interessante e pedagógica, em Junho irei a Antenas e tenho procurado informação sobre os mais variados temas, encontrei este da “Cilada” adorei simplesmente pelo facto de alertar a malta que é melhor validar o bilhete não vá o fiscal aparecer.
    Este post já tem alguns anos como tal hoje já a multa aumentou e o preço do metro também, obrigada

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