Figuras do mundo: Mochileiras da mídia

Aqueles viajantes sem-destino sempre exerceram fascínio enorme em mim. Não glorifico sua vida errante, não condeno a falta de lar. Apenas admiro a coragem de colocar uma mochila nas costas e sair pelo mundo, algum pouco dinheiro no bolso, quem sabe uma data de volta – ou não, sem roteiro, sem parar. Alguns têm tempo limitado, outros reservam as aventuras a uma determinada circunscrição, América do Sul, Europa, Brasil… Enquanto uns cultivam apenas o mito da juventude à deriva, outros simplesmente querem a vida assim, de passagem em passagem, de pouso em pouso, de lugar em lugar.

Acho que por isso quis viajar de mochila nas costas. Se não me aventurei a cruzar a Europa aos meus vinte e poucos – e sofro com o arrependimento, queria me auto-classificar aventureira o suficiente para viajar deste jeito descompromissado de ser.

E então, com uma mochila nas costas, você descobre um outro jeito de viajar. E encontra companheiros de peso onde quer que esteja (assumindo que um mochileiro não vai se meter em zonas high profile, certo?). E olha desconfiado o pequeno tamanho das mochilas vizinhas, imaginando com certa admiração como é possível tanto desapego.

De repente, surge uma vontade enorme de sair seguindo elas por aí, saber onde vão dar, o que vão encontrar, em quanto tempo voltam para casa, ou se voltam para casa, ou se têm casa. Vontade de cancelar a volta para a própria casa e começar a viajar sem destino, seguindo o rastro das mochilas errantes.

Artistas mochileiras em performance

Foi pensando em tudo isso que ouvi uma música vinda da pequena praça, com mais uma igrejinha bizantina encravada no meio. Uma moça de traços orientais tocava um cello. Sentada atrás dela, uma outra, de traços bem europeus. Naquele momento estava calada, mas acho que seu propósito era cantar junto. Ao fim do pequeno número musical, a primeira se levantou para dizer que as duas realizavam um grande viagem por toda a Europa, apenas com o dinheiro arrecadado dos espectadores, como nós, em apresentações livres, em praças como aquela. Atenas era seu primeiro destino. Não preciso dizer que isso me encheu os olhos.

Duas meninas, sozinhas pelo mundo, vivendo de música e das próprias pernas. Não. O inusitado da história eu ainda não falei. Elas não estavam de todo sozinhas. Toda uma equipe acompanhava a aventura das duas a cada passo dado. Montavam o lugar, filmavam e, se bobear, até produziam as próximas paradas da viagem.

Eis que surge uma equipe de filmagem.

Uma boa ideia para um documentário (se é que era um documentário, o propósito das filmagens não ficou claro), devo dizer. Mas toda a aura de mochileiro errante… foi sumindo no ar, junto com as notas do cello.

No dia seguinte, ao visitar uma das ruínas da cidade, alguém me cutuca o ombro e pergunta se posso tirar uma foto. Era ela, nossa musicista/atriz/mochileira. De mochila mesmo, só o enorme volume do cello nas costas. Eu sorri, respondi que sim e perguntei se ia aparecer no filme dela. Era só uma piadinha. Mas ela ficou sem graça, disse que não, e quase pega a máquina de volta, achando que eu estava chantageando em cima do pedido de foto. Ah, esses orientais…

Para tirar a foto a equipe não serve.

 

Figuras do mundo
Se o mundo é esse grande espetáculo por descortinar, certamente, a cada ato, a cada cena, inúmeros personagens hão de aparecer. E quanto mais majestoso é o enredo, quanto mais delicada e complexa é a misancene (aportuguesando a expressão mise en scéne – encenação), mais figurantes são necessários. E a gente não pode negar que o mundo está cheio deles. Figuras estranhas, divertidas, diferentes ou totalmente típicas. Muitas vezes nem sabemos ao certo o que estão fazendo lá. Mas com certeza, sem elas, a composição da cena jamais seria a mesma.
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