As OUTRAS ilhas gregas

Antes de contar a história das Ilhas Jônicas nesta viagem por céu, terra e mar, eu preciso antes colocar um pouquinho de contexto. Como meus amigos mais próximos dizem, minha frase é “Deixa eu explicar!”. Então, peço que, neste momento, você me dê a mão e entraremos em flashback: a tela de repente fica esfumaçada e se sua lembrança da saudosa década de 80 for bem viva, talvez até um sofá venha entrando pela porta – senta que lá vem história…

 

Há alguns anos, minha mãe foi convidada para um jantar. E como there is no free lunch*, durante a noite, foi apresentado para ela o RCI. Em poucas palavras, posso dizer que o RCI funciona como um clube em que os sócios pagam uma espécie de mensalidade durante um tempo e têm direito a usufruir X semanas em hotéis e resorts ligados ao RCI em todo o mundo. A minha mãe, por ser uma pessoa especial, que eles queriam muito ter a bordo do clube, etc, etc, etc e mais todas as coisas que falam para convencer os futuros clientes, podia comprar o pacote relativo a 10 semanas e ganhar mais duas. Enfim, convenceram. E ela, que realmente é uma mãe muito especial, deu a cada um dos filhos 3 semanas para usarmos onde quisermos. Eu estava guardando as minhas pra lua de mel, claro.

Quando o casamento foi marcado, a ideia era reservar semanas em Paris, Barcelona, Sul da França, Veneza, qualquer um desses glamourosos e românticos destinos europeus. Que nada. Os atendentes da RCI diziam que seria impossível reservar tais lugares uma vez que os destinos eram os mais cobiçados do mundo em alto verão europeu. Mas… espere aí, tem uma oportunidade incrível e única, que nunca apareceu antes em nosso sistema, disponível agora mesmo. O que sua filha ia achar de passar a lua de mel nas ilhas gregas? Uai, acho que ela não ia se importar não…

Não, eu não me importei. Nenhum um pouquinho. Aliás, estava praticamente fazendo as malas, um ano antes, para passar uma semana a bordo de uma catamarã, com mais 4 ou 6 passageiros, navegando por ilhas gregas que eu nunca tinha ouvido falar antes. Nada de Santorini, Mykonos e etc. O barco parte de uma ilha chamada Lefkada e segue rumo a praias espetaculares e cidadezinhas escondidas, encravadas em pedaços de terra de um verde escuro de olivais, ciprestes e vinhedos e cercados pela água de um azul profundo e hipnotizante.

Que tal uma paisagem diferente do que você estava imaginando?

As tais cidadezinhas são escondidas especialmente dos brasileiros, que não costumam dedicar tempo a essa parte cinematográfica da Grécia, enquanto se ocupam de descer de navios gigantes direto para a clássica visão das construções em azul e branco dependuradas em penhascos, localizada em outro conjunto de ilhas, um pouco longe dali, as Cíclades. Não quero dizer, de forma alguma, que a esperança de ter essa visão também não tenha me contagiado, desde o início dos planos de viagem, e me emocionado  muito quando finalmente cheguei lá, no mar mais ao sul. Mas a gente acaba descobrindo cada coisa quando se entrega às outras possibilidades que a vida oferece…

E descobrir as outras ilhas gregas foi uma grata surpresa.

 

Como eu já disse por aqui, o restante do roteiro da lua de mel foi inteiramente desenvolvido a partir desse “singelo presente” que ganhamos. Ouso dizer que até a data do meu casamento foi escolhida de forma a comportar uma chegada tranquila a Lefkada. Especialmente depois que nos aconselharam a, vindos de Atenas, pegarmos a estrada e não a via aérea – que só podia ser feita via Olympicus Air e isso não era muito aconselhável. Sendo assim, após alguns dias em Atenas (sobre os quais acho que já falei aqui à exaustão!), seria hora de partir rumo ao interior da Grécia, em busca de um certo catamarã e umas Ilhas Jônicas…

O meio de transporte escolhido? Um ônibus! Já contei a aventura que foi encontrar a rodoviária, certo? Mas ainda não comentei SOBRE a rodoviária… Resumidamente, a pior que eu já vi na minha vida – considerando que já passei por estações de ônibus na Bolívia, no Peru, em Cuba… Desorganizada, suja, com poucas informações legíveis (ao menos para nós, não-gregos), parecia mesmo que os turistas estrangeiros não eram chegados a esse tipo de transporte, por isso a falta total de dedicação das autoridades ao lugar. A grande surpresa da história é que os caros leitores nem imaginam o ônibus que encontramos para viajar diante desse cenário nada promissor. Imaginem se ele era branco, reluzente, tinindo de novo, limpinho e supermoderno por dentro… Não imaginaram, né? O mais impressionante é que ERA SIM. Se a gente fosse doido o suficiente, dava para lamber a lataria do ônibus, de tão limpo que era. Por dentro, novo em folha, com bancos confortáveis, ar condicionado em perfeito funcionamento, ótimo para a deliciosa viagem de 6 horas que estávamos prestes a enfrentar.

O caminho

E não foi difícil ver as horas passarem. A paisagem ia surpreendendo pela janela, revelando um mar cada vez mais bonito, com prainhas bem selvagens perdidas aqui e ali. Lá fora, 37˚C era a média. Lá dentro, Leandro tinha feito uma seleção de músicas gostosas pra ouvirmos e adormeci. Acordei quando ele me surpreendeu com uma das nossas, aquela que mais embalou o nosso casamento (quem foi já sabe de cor de qual estou falando).

Após uma bela ponte estaiada, chegamos à cidade de Lefkada. De lá, era necessário pegar um ônibus até Nydri, a vila-balneário onde nosso catamarã estava esperando.

As embarcações atracadas em Nydri. Uma delas seria a nossa casa pelos próximos 7 dias.

Tão embalada eu estava neste momento que, até então, não tinha me preocupado com coisas simples e fundamentais, que outras pessoas talvez tivessem se preocupado tempos antes, como que tipo de companhia teríamos no barco durante longos 7 dias (haveria mais passageiros no barco, além da tripulação, mas não sabíamos nem a quantidade certa, nem de onde eram, muito menos se eram boa gente), ou se as acomodações do barco seriam legais o suficiente para um casal em lua de mel, ou até mesmo como encontrar a tal da pousada onde o barco estava atracado. Confesso que nada disso tinha me preocupado até aquele momento. Mas na hora que eu entrei no ônibus para Nydri, tudo foi ficando assustadoramente desconhecido demais. E se algo saísse errado?

Quando digo que brasileiros não se aventuram muito por ali, falo pela (falta de) experiência de não ter visto nenhum por aquelas bandas, nunca ter ouvido um relato de viagem que seja, ou escutado lá alguma história que envolva brasileiros. Em compensação, os europeus conhecem muito a região. E os navegantes, então, não tiram as ilhas dos seus roteiros de férias por nada desse mundo. Milhares de embarcações atracadas a cada vila. Outras tantas cruzando por nós, de iates gigantescos a pequenos barquinhos com famílias inteiras dentro. Bandeiras da Itália, Suécia, Inglaterra, França tremulavam pelos céus gregos.

Nossos representantes eram outros: uma bandeirinha de mastro, encontrada na vilazinha de Fiskardo, ilha de Kefallonía, e muitas, mas muitas mesmo, Havaianas. E quando não tinha Havaianas, eram Ipanemas. E quem explicou esses estranhos achados para nós foi um ex-marinheiro, que em seus bons tempos de navegação visitou todos os portos do nosso país, alguns que eu nem sonhava conhecer ainda. “Porque você tem uma bandeira do Brasil se aqui não tem brasileiros?” Era ano de Copa do Mundo, né? A bandeira era para torcer. Para nós, ela teve a utilidade original: ocupou o mastro do nosso barco indicando que ali se encontravam orgulhosos tripulantes brasileiros. Quanto às Havaianas… ah, os europeus não tiram elas dos pés. Qualquer lugar era lugar praquelas brasileirinhas. Mas em ano de crise na Grécia, a mais famosa marca de chinelos do mundo subestimou o poder do turismo por ali. Deu brecha para a Ipanema entrar feliz e radiante nos buracos deixados pela concorrente que “não solta as tiras e nem dá cheiro”.

Primeiro a do capitão, inglês. Depois da tripulação, a first-mate é irlandesa. Depois a dos passageiros empolgados, os brasileiros.

 

* Para quem não conhece a expressão, não existe almoço grátis é a velha história da pegadinha. É claro que nada vem de graça, interesses reinam neste mundo comerciante. Então, qualquer almoço (ou jantar, no caso) que você ganha tem sempre um verdadeiro motivo escondido por trás da “gentileza”. Se ele for escancarado, logo você vai saber. Se não, bote a cabeça para matutar…

 
Dicas para você que ainda vai para lá:
 
(1)   Interessou-se pelo programa do RCI? Visite a página www.rci.com.br para ver os hotéis e resorts espalhados pelo mundo. Para quem está em Belo Horizonte, o escritório do RCI fica no hotel San Francisco Flats, na avenida Álvares Cabral.
(2)   No final das contas, estávamos embarcando, via RCI, numa outra espécie de clube: o Trade Winds Cruise Club, que ao invés de hotéis e resorts, tem barcos, veleiros e catamarãs espalhados pelo mundo, em especial no Caribe. Os sócios também pagam um tanto que dá direito a X semanas velejando em um dos destinos. No caso, eles têm uma parceria com o RCI e disponibilizam algumas vagas para membros dele. Demos a sorte de conseguir uma delas. Mas, olha, vale a pena conhecer o Trade Winds, dá água na boca imaginar novas viagens como a que fizemos, em outros destinos tão lindos quanto esse.
(3)   A Grécia tem centenas de ilhas espalhadas nos mares ao redor da península. E elas conseguem ser muito diferentes entre si por questões geográficas, geológicas, naturais, de história (e bota história nisso!), arquitetura, ocupação e até tipo de turismo. Assim, elas podem ser dividias em grupos que apresentam características similares: Jônicas (mais próximas da costa da Itália, pertinho do “salto da bota” e da Albânia), Argo-Sarônicas, Esporades e Eubeia, Ilhas do Nordeste do Mar Egeu, Dodecaneso, Cíclades (as mais famosas, encarnam o ideal de ilha grega, sendo suas representantes mais famosas Santorini e Mykonos) e Creta. Aconselho para quem quiser ir visitar ilhas o Guia Visual, da Folha de São Paulo, Ilhas Gregas e Atenas.
(4)   A Grécia não tem companhias de ônibus comerciais. Todos os trechos interestaduais são operados por uma única companhia ligada ao governo. A passagem tem preço único (e não é cara, pagamos 35 euros na viagem Atenas-Lefkada) e pode ser adquirida na rodoviária, numa salinha meio estranha. Mas os ônibus parecem todos bons e novos.
(5)   Caso esteja querendo se aventurar pelas Jônicas, aconselho escolher entre as do sul (Zakhyntos, Kefallonia, Ithaca e Lefkada) e as do norte (Corfu e Paxos), pois esses dois grupos são distantes entre si. Se você conseguir chegar numa das cidades iniciais, Lefkada para o primeiro grupo e Igoumenitsa para o segundo (de ônibus, de carro alugado ou pelo aeroporto de Preveza), você consegue circular entre elas de ferry boat e dentro de cada ilha de carro alugado ou ônibus. Quase todas as ilhas têm estradas e linhas de ônibus que levam do principal porto à principal cidade.
 
 
Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.

Cenas do próximo capítulo: O que que esse catamarã tem? Nossos companheiros de mar.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Celme de Castro disse:

    Achei uma delícia ler o post sobre as Ilhas Gregas. O texto é leve, gostoso, muito bem escrito e dá todas as dicas que ficamos curiosos de saber. Lu e Le, vcs não imaginam como fico feliz ao saber que vcs curtiram tanto essa viagem!

  2. disse:

    Aqui preciso deixar um comentário sobre algo que me lembro e muito me dá orgulho. É que minha fama de memória de peixe já pegou, a Lu é meu HD externo, esse tipo de coisa… Mas quando éramos muito, mas muito pequenas, numa das nossas noites na casa da vovó Dalva (citadas no post que chamo de meu), a Luísa me falou que sua lua de mel um dia seria nas ilhas gregas. Ela não se lembra. Mas eu lembro. E foram, e eles foram muito felizes lá!

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