Kalimera, honeybunny, kalimera!

Sentados no ônibus em direção a Nydri, um lugarejo qualquer perdido na beira do Mediterrâneo grego, começamos a divagar coisas que talvez tivéssemos que ter pensado muito tempo antes. Quem são as pessoas que viajarão por sete dias conosco, dormindo, acordando, comendo, tomando sol, tudo isso num espaço ínfimo de onde só se foge se atirando ao mar? E se esse tal cruzeiro não for nada disso que esperamos? E essa pousada onde o barco estará atracado? Como descobriremos onde fica se o motorista do ônibus e o cobrador nunca ouviram falar (talvez porque eles não são muito capazes de ouvir tão bem em inglês…)? Quem já vem viajando com a gente por essa estrada já sabe que as dúvidas começavam a rondar nossas cabeças.

Afinal, você não queria ser mochileira, aventureira, passar a lua de mel ao sabor do risco? Agora aguenta o coração acelerado à espera do que está por vir. Não era essa a graça?

Tudo isso passava pela cabeça, enchia os ouvidos e pousava sobre o peso das mochilas, quando descemos do ônibus, no meio da estrada, com uma promessa bem vaga de que aquela ali, logo adiante, poderia ser a nossa pousada. Entramos. À primeira vista, tinha uma pequena revolução nórdica acontecendo bem no meio do hall da casa meio colonial, meio antiga, meio pousada do interior. Explico: umas duas dúzias de pessoas de cabelos extremamente amarelos, entre crianças, adolescentes, jovens, pais e tios, estavam se enxugando, trocando e arrumando em meio a malas abertas e uma ligeira algazarra. Quer dizer, não expliquei nada, né? Bem, eu também não entendi…

Leandro deixou a mochila comigo e foi buscar alguma espécie de ajuda enquanto eu não conseguia deixar de observar a cena, um pouco constrangida (desculpem se pareço pudica, mas não consigo me acostumar com essa coisa europeia de trocarem de roupa, chegando a ficar pelados, como se fosse tão simples quanto tomar sorvete na esquina. Depois eles falam dos brasileiros…). Mas logo o Leandro voltou com uma pessoa a tiracolo. Falando sem parar, ela me abraçou, perguntou como foi o casamento, se tínhamos feito boa viagem, onde estávamos antes dali, como se fossemos velhas amigas. Foi levando a gente em direção ao cais, até chegarmos no último barco atracado, um catamarã. Aí mais gente apareceu, falando sem parar e perguntando mil coisas, tirando nossas mochilas das costas e mandando que tirássemos os sapatos porque eles eram proibidos daquele momento. E eu sem nem saber qual pergunta responder.

Demorou um pouquinho até entendermos tudo. Ali estavam Mairead, nossa first mate irlandesa, e Paul, nosso capitão inglês. A mulher (perdão, mas o nome dela me falha agora) que veio nos receber na pousada era uma espécie de hostess, que administra tudo enquanto o barco está no mar e, claro, recebe as pessoas efusivamente (eu diria). Dentro do barco também se encontravam os demais passageiros, dois casais de americanos: os médicos nova-iorquinos Jamie+Sy e Michael+Dennis, um médico e um cabelereiro de Atlanta. Estava formada então a tripulação de oito pessoas. Com as quais conviveríamos quase que ininterruptamente durante os próximos sete dias.

(Quase) Todos ao redor da mesa.

Não sei bem por onde começar a contar essa história de mar. Cronologicamente? Humm, não sei se ficaria longo demais, detalhado demais… (eu sei, eu sei, sou sim detalhista. Mas você continua lendo, não continua?) Então, começo assim como começavam nossos dias a bordo.

–        Kalimera, Honeybunny! Kalimera!

Essa era Mairead, às 7 e meia da manhã, nos desejando bom dia em grego, enquanto preparava o café da manhã, que magicamente tinha coisas diferentes e inimagináveis todos os dias, em pleno mar. Com um dos sorrisos mais contagiantes que vi na vida, ela chamava todos nós de honeybunny, enquanto cozinhava, limpava o barco, levantava âncora, içava vela, puxava cordas que surgiam de todos os lugares do barco, nos servia bebidas geladíssimas e, pasmem, nadava carregando correntes pesadas no corpo para “amarrar” o barco no local onde iríamos passar a noite. Nas horas vagas, ela se dedicava ao prazer de perguntar se queríamos algo, se estávamos satisfeitos, felizes, confortáveis, refrescados. Incrível. Quando perguntei sobre a sua vida pessoal, se teria uma casa para morar, uma família, se não queria ter filhos, ela disse que aquilo ali era tudo que ela mais queria fazer. E nós éramos seus filhos. Filhos bem mimados, viu?

Esse é o espírito, senhoras e senhores!

Tempos depois que havíamos saído do barco, Leandro ainda imitava Paul, o capitão que foi o inglês mais jovem a tirar sua licença para velejar, aos quinze anos, e nunca mais fixou ponto em terra. A imitação ia ficando cada vez mais distante e hilária, à medida que o tempo passava, numa mistura de Popeye com homem das cavernas. De qualquer forma, a voz (original) de Paul chamando a Mairead nunca saiu da minha cabeça. Depois do café da manhã, ele reunia todos para o “briefing”. Era quando abria o grande mapa do Ionian Sea na mesa e apontava o roteiro que pretendia fazer, onde almoçávamos, onde nadávamos, onde velejávamos, onde dormíamos. E assim, zarpávamos, depois de um mergulho pós café da manhã.

Momento “Briefing”

O café da manhã era cedo. Sim, bem cedo. Mas era impossível ficar na cama depois de 7 da manhã. A paisagem do lado de fora começava a se revelar e as cores que iam aparecendo tiravam o fôlego apenas de olhar pela pequena escotilha da nossa cabine. Era realmente necessário subir os poucos degraus que nos separavam do ar livre e da visão em 360˚. E as manhãs recompensavam o esforço com esplendor. Eram frescas e iluminadas. Nos dias que acordamos em pequenas baías praticamente desertas (a não por outros barcos e iates aqui e ali que nos faziam vizinhança), a cor da água nesta hora do dia era particularmente hipnotizante. Talvez fosse o sol batendo atravessado, com uma preguiça gostosa de esquentar o dia, deixando esse esforço só para mais tarde. Talvez fossem os altos paredões de rocha branca, que terminavam em pequenas praias de pedras, tudo refletindo no espelho da água. Talvez fosse o encanto de acordar cada dia num lugar e saber que tudo que havia para se fazer era admirar. Talvez fosse simplesmente assim e nada mais havia para discutir, a não ser observar os peixes surgirem atrás dos nossos pedaços de pão.

O dia amanhecendo pela escotilha da cabine
Aos poucos, o sol ilumina a pequeniníssima Ilha Atoko.

Foi numa dessas manhãs que aconteceu. Na noite anterior, o barco havia chegado a uma pequena baía, com um imenso paredão branco, que encontrava o mar em uma desértica prainha de pedras também brancas. Com os olhos postos na rocha, encontramos uma mancha marrom que se movia de um lado para outro. Era um bode, que ao descer o paredão, de pedra em pedra, agora não encontrava mais saída para a encrenca que arrumou. Observamos o pobre bode enquanto a noite entrava devagar pelo barco e embalava a conversa dos casais deitados na rede na frente do barco. Quando a manhã nasceu, tudo tinha ganhado um aspecto entorpecente de bonito. O silêncio era mais alto que qualquer rangido do barco e a água era profundamente verde-esmeralda. Como se sereias estivessem me chamando, me joguei. Foi o encontro de um lugar sagrado. E o sagrado é um universo particular, extremamente só, mas imensamente sublime. Foi assim que eu me senti, naquela manhã, enquanto nadava sozinha em meus pensamentos e o dia despertava. O sol batia leve, a água estava fresca, a luz perfeita. Nada existia mais que pudesse manchar a beleza do mundo. Até que…

A imagem da manhã sagrada.

Fui mergulhando, com a cabeça dentro da água, observando o silêncio do mundo aquático. Me afastei do barco um pouco, virei uma ponta do paredão de rocha, saí na superfície e dei de cara com… o pinto de um homem nu, no barco bem na minha frente. Não, eu não estava preparada para isso naquela hora do dia. Mergulhei de novo, dei meia volta e, rapidinho, estava dentro do meu barco, onde todos os órgãos genitais ficavam bem guardadinhos.

No fim das contas, a visão estava ficando comum. A nudez nos barcos de tripulação europeia era bem popular por aquelas bandas.

Depois do mergulho pós café da manhã, era hora de zarpar. A torcida nessa hora era sempre a favor do vento. Içar as velas e velejar era a melhor opção, especialmente para fortalecer o coração de quem conseguia lugar cativo no Dolphin’s seat, que era como a Mairead chamava os dois banquinhos lá na frente do barco, uma verdadeira montanha russa, quando o vento soprava a nosso favor. Quase que galopando, o barco ia direto para a próxima ilha, a próxima paisagem surpreendente, o próximo momento sublime.

Aproveitando o Dolphin’s seat

Enquanto eu ensaiava escrever este post, por duas vezes as Ilhas Jônicas me chamaram. Não me estranhe, é que eu acredito no poder que as memórias e os lugares têm de conversar com a gente. A primeira vez, foi na voz de Zeca Camargo. Sim, o apresentador do Fantástico. Só para me desmentir que brasileiros não apareciam por lá (disse isso no último post, lembra?). Acontece que eu estava lendo o livro “A Fantástica Volta ao Mundo”, escrito pelo Zeca sobre a viagem que fez em 2004 pelo Fantástico. Bem neste momento, entre um post e outro sobre as Jônicas, ele estava contando sobre Atenas e a abertura das Olimpíadas e ia a caminho de Meteora e Cefalônia, também na Grécia. A princípio, eu não entendi que lugar era Cefalônia. Só quando li o relato, em especial a parte da Caverna-lago de Melissani, é que descobri que estivemos na mesma ilha, que eu conheci por Kefalloniá (o guia chama ela assim). O outro chamado foi feito pelo filme “Capitão Corelli”, com Nicholas Cage e Penélope Cruz, que se passa também em Kefalloniá, durante a segunda guerra mundial. Peguei um pedaço na televisão e fiquei cruelmente dividida entre assistir até o fim ou desistir logo para depois ver desde o começo (é claro que não resisti e assisti).

Um pedacinho da Kafalloniá e o nosso catamarã
 
Dicas para você que ainda vai para lá:
(1)   Recomendo os dois, o filme que vi pela metade, mas é lindo, e o livro que devorei inteiro, repetindo as partes que relatavam lugares que já fui e me apaixonei. Sobre o livro eu ia falar depois, quando estivéssemos em Istambul, mas falo agora. Numa narrativa gostosa, ágil e bem natural, do jeito que eu gosto de ler e de escrever, Zeca Camargo conta as histórias da sua volta ao mundo, inclusive os bastidores de reportagem e produção de uma aventura incrível, que me despertou ainda mais a vontade de conhecer tudo que existe por aí e escrever sobre tudo que vi e senti.
Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.
 
Cenas do próximo capítulo: Além das praias, as pequenas vilas das Ilhas Jônicas; os casais; as cavernas; as lendas.
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1 comentário Adicione o seu

  1. Celme disse:

    Adorei o relato, Luísa… me deu a impressão de estar lá com vc, apreciando tudo…

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