Um pouco mais sobre céu, terra e mar

Na era romana, as ilhas Jônicas foram o primeiro local de veraneio do país,” diz o Guia Visual que nos acompanha. E deve continuar sendo. Isso explica porque naquele ônibus entre Atenas e Lefkas só encontramos gregos e apenas um casal de franceses, pelo visto acostumados com esse trajeto há muitos verões. Acredito que a experiência dos gregos no ônibus era a mesma de quando eu ia de Belo Horizonte a Cabo Frio, em janeiro, na expectativa de reencontrar todo o pátio do colégio nas areias brancas da praia fluminense. Com a diferença que nas Jônicas a praia pode até ser branca, mas é de pedras grandes o suficiente para não te deixar andar descalço, e os tropicais coqueiros foram substituídos por oliveiras, ciprestes e pinheiros.

Mas antes de tudo vem a água. Ah, a água! Transparente e profunda. Não se sabe porque se disfarça de verde ou azul quando na verdade é límpida, fresca, perfeita. É por ela que vem todos os outros, gregos ou não gregos, guiados por Odisseu até Ítaca, ou por Capitão Corelli à Kefalloniá. Italianos, franceses e britânicos redescobrem, a cada verão, as marcas do seu passado deixado em cada uma dessas ilhas, ocupadas, desocupadas, construídas e desconstruídas por invasões, conquistas, terremotos, lutas, lendas e verões inesquecíveis.

Se as águas, azuis, verdes ou transparentes, são a porta de entrada para o verão nestas ilhas, numa determinada ilha, a porta é, de fato, azul e branca como manda o figurino grego. Mas está metros longe de nós, pobres mortais. Os imortais que entram por ali são convidados especiais da família Onassis, proprietária de Skorpius – o pequeno pedaço de terra cercado de águas verde-esmeralda – há décadas. Também existe a possibilidade de ser rico o suficiente para “comprar” sua entrada, se hospedando no hotel que hoje está instalado na ilha. Mas, para que tudo isso – ser imortal ou milionário – se ninguém se digna a frequentar a praia lindinha que se encontra na ilha. Nossa primeira parada do cruzeiro, em frente à ilha Onassis, no final de uma linda manhã de sol e calor, mostrou que esses sujeitos não sabem o que estão perdendo.

Em outros cantos, de outras ilhas, outros, estes sim mortais e gozadores da vida, se refestelam. Chegam glamourosamente de barco, mas montam barracas, cadeiras, se lambuzam de protetor solar e trazem a caixa térmica cheia de cerveja Mithos. O que, em bom português, poderia ser uma bela duma farofa. Mas, já que são europeus e as ilhas são gregas, passam a ser chiques.

Nós, que de imortais não tínhamos nada, e de farofa tínhamos um pouquinho, fazíamos diferente. Nada de atracar na próxima praia deserta, com isopor a tiracolo. Drinks e tira-gostos eram servidos mesmo na água, nosso bar molhado montado sobre chiquérrimos espaguetes de espuma. Era o famoso “drinks with the captain” (embora o capitão não entre na água…), todos os dias britanicamente às 17h.

Mas nem só de mar nossos dias eram feitos. Se a água se revelava um convite ao dia preguiçoso entre calor e frescor, a terra sempre falava mais sobre o lugar. Contava episódios de lendas, de história, de catástrofes, de vida vivida. Muito além do balneário. A terra sempre revela mais, especialmente em lugares onde a história foi sentida vibrando sob os pés.

Muitos, de várias formas e intensidades, foram os terremotos que atingiram as ilhas Jônicas, por (não) repousarem em uma linha de falha geológica. O verão de 1953 foi especialmente destruidor para Zákhyntos e Kefalloniá, deixando marcas e vilas abandonadas.

A ilha de Ítaca não passou ilesa por 53. Apesar de ter sido também devastada, muita história ficou por lá para contar. De história, aliás, a ilha está cheia. Consagrada como o lar de Odisseu, o herói da Odisséia de Homero, Ítaca faz parte do panteão de lugares mitológicos gregos.

A pequena e colorida Vathy também foi destruída pelo terremoto de 1953, no entanto, foi declarada um povoado tradicional, o que fez reerguerem as construções no estilo existente.
A minúscula ilha quadrada foi, um dia, o presídio de Ítaca. Inacreditável!

A geografia, bastante peculiar, faz com que duas ilhas sejam uma. Ou seja, de Vathy, a capital na porção mais ao sul, sai uma estrada bela e sinuosa que vai subindo a estreita – e alta – faixa de terra que vai parar na porção norte, com outros vilarejos, povoados e portos. No alto dessa magra montanha, encontramos um mosteiro ortodoxo. E do alto do mosteiro, encontramos toda Ítaca, com Vathy ao fundo e o perfume da lenda de Odisseu no ar.

Do mosteiro viemos descendo, passando por vilarejos que parecem estar sempre a organizar festas para alguma Agía ou Agios (as santas e os santos em grego – o que descobrimos depois de conviver muitos dias com as duas palavras, e fomos capaz de entender porque é fácil comparar com a quantidade de Santas e Santos que nomeiam cidades, bairros e até estados no nosso país católico), o mar surgindo sempre, antes, durante e depois da curva, na estrada que segue como uma cobra lânguida no alto da montanha, com precipícios por todos os lados.

Rodamos muito, passamos pelo lugar onde supostamente o palácio de Odisseu se encontrava e voltamos a subir pela estrada até encontrar o restaurante. De um lado, o mar e o pôr do sol, do outro, a casa do restaurante, mais mar e mais vista. No meio, apenas a estrada. Estávamos, mais uma vez, no alto da estreita montanha que une os dois pedaços da ilha. E essa era a única oportunidade de ver o sol se pôr elegantemente no horizonte. Única nesta parte da história, enquanto navegávamos pelas Jônicas. Depois… foram incontáveis.

Assistir ao sol nascer também era coisa rara. Todos os dias o barco amanhecia numa baía com um grande paredão de pedra em frente ou atracado no cais de alguma vilazinha, alguma coisa estava sempre a nos separar do sol e seus momentos mais majestosos. No entanto, quando dormimos em Agía Efthimia, de um lado do cais repousavam os barcos, do outro, somente pedra e mar. Segundo o capitão, o sol nasceria no mar, cerca de 5 e meia da manhã. E então, sonolentos, deixamos o barco para encarar o friozinho do fim da madrugada, protegidos com uma canga e assistimos a tudo: o escuro clarear, o sol ameaçar romper mas segurar nossa ansiedade em suspenso, como uma noiva charmosamente atrasada, o contorno dos grandes navios ao longe ficando mais nítido, a montanha ganhar os primeiros raios de luz. Finalmente, ele saiu. Não do horizonte do mar, como esperávamos, e sim da colina que se encontrava com a água. E nem às 5 e meia, mas quase 6 e meia da manhã. Mas valeu cada minuto da espera.

O dia que se seguiu também escondia pequenas surpresas naturais. Da vila de Agía Efthimía, fomos descobrir duas cavernas, orgulhos naturais da Grécia. A primeira, Drogkaráti, foi esculpida pelo tempo e pelas águas com estalagtites descendo do teto numa grande câmara. Parece uma sala acústica de consertos. Não só parece. Um dia tiveram a brilhante ideia de retirar as estalagmites do chão para abrir espaço para cadeiras e realizar apresentações musicais ali. Deu saudade de casa e das nossas muito mais belas cavernas em Minas. A segunda, a caverna-lago de Melissáni, é considerada um dos cartões postais das ilhas Jônicas.

Realmente, é de um azul deslumbrante e muito profundo. A luz bate enviesada deixando as cores mais surreais e a bruma que cobre a água ligeiramente mística. Mas, mais uma vez, tivemos que lembrar das cavernas-lago que temos nas chapadas Brasil afora. Eu ainda não conheço nenhuma, mas o Leandro conhece a Chapada Diamantina e literalmente desdenhou a famosa Melissáni, que tanto encantou nossos amigos americanos.

Amigos americanos que deviam estar, a essa altura, cheios de nos ouvir falar do Brasil. Ou incrédulos. Eles acharam aquelas cavernas a oitava maravilha natural, como era possível que o Brasil tivesse melhores? Preciso contar que, a essa altura, eu e Jamie, a médica nova-iorquina da trupe, estávamos nos irritando um pouco. De todos, ela era menos interessada em nos ouvir, a que mais desdenhava, a que punha as piores e mais adolescentes músicas americanas para ouvirmos e a que dizia nos entender um pouquinho conversando em português. Puro medo do fato de entendermos o que eles dizem mas eles nunca serem capazes de entender o que dizemos entre nós. Puro comportamento típico do viajante norte-americano que, apesar de viajar pelos quatro cantos, não é capaz de admitir que o mundo além do umbigo próprio tem cultura, história, sabor, sonoridade mais ricos do que o mais rico país. A minha palavra para isso é Preguiça!

Já o psiquiatra Sy e o casal Michael e Dennis eram companhias deliciosas. Sy sabia manter conversas animadas, interessadas e interessantes, admitindo que cada um tinha um pouco para contar naquela roda. Michael e Dennis me pareciam um casal saído de um seriado americano gay. Nada de comédia aqui, me entendam. Mas eu olhava para eles e via duas caricaturas do que esperamos encontrar entre um médico e um cabelereiro casados. E de todos nós, eram de longe o casal que mais tinha a dizer sobre amor, respeito e união.

Antes de nos despedirmos, mais uma das pequenas e graciosas vilas. Fiskardo, confesso, encheu meu coração com seus cafés e mesinhas coloridas na beira do cais, ruelas de casas floridas e padarias… Ah, as padarias! (Suspiros acabam de sair da minha boca). Tão perfumadas e ricas da iguaria mais simples e perfeita que o homem, há tantos milênios, inventou: o pão. Isso sem falar na pâtisserie, nos doces e sorvetes, enfim, no mundo de sabores que eu nem conseguia experimentar de tão alimentada que Mayread me deixava antes de sair do barco e ganhar a rua.

Foi em Fiskardo que encontramos um dos museus mais cômicos que já vi. Era de uma inocência quase infantil os expostos ali, contando a história da região em trabalhos, cartazes e maquetes parecendo feitos pela 5a série ginasial. Mas foi em Fiskardo também que encontramos uma das ruas mais floridas e deliciosas de se caminhar que eu já vi, com suas grades repletas de videiras, seus jardins de bouganvilles, suas portas e janelas convidativas. Vontade de entrar e tomar uma xícara de café, dividir uma taça de vinho da Kefalloniá, bater papo com um grego, ver a vida passar naquela rua cheia de graça, beirando o mar.

Foi ali também que, logo depois de uma curva do caminho, ouvi uns sons estranhos, uma voz de professora do Charlie Brown vinda do nada. Olhei a praia lá embaixo da encosta e encontrei: o menino, de seus 4 ou 5 anos, conversava sozinho, através do tubo do snorkel. Devia estar falando com os peixes de mais uma prainha deserta e perfeita, perdida numa ilha Jônica.

Kaliespera! Aquela era mais uma boa tarde de sol.

Dicas para você que ainda vai para lá:
(1)   Quer passar uma temporada nas Jônicas? Recomendo fazer um pouso maior em Kefalloniá. Pode se hospedar em Fiskardo, vai por mim. Deliciosa e cheia de opções, entre pousadinhas e casas para alugar, tem várias prainhas e serviços de transporte para outros pontos da ilha (de ferry a ônibus, passando pelo aluguel de carros) e outras ilhas (ferryboat).
(2)   Ítaca também é uma boa. Vathy é bem simpática para se hospedar, mas a ilha quase não tem praias boas para o turista. Gaste apenas um ou dois dias para circular pela ilha.
(3)   Não fui a Corfu, a ilha Jônica mais ao norte. Mas pelo guia e pelos relatos que ouvi, é bem interessante, talvez a mais atrativa de todas. Mas é coisa para vários dias de andança por lá.
 
Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.
Cenas do próximo capítulo: Pernas para que te quero, ônibus e mais ônibus e mais ferry até a esperada chegada em Santorini!
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