No encalço do Sol

Sentadinhos no banco do ponto de ônibus, nós estávamos. À nossa volta, pouca coisa: atrás umas pousadas cujos fundos eram pequenos ancoradouros, muitos barcos e mar, à frente a estrada, do outro lado dela, uma casa com parreiras tão fartas e uvas tão perfeitas sobre a garagem que cheguei a imaginar se não seriam falsas, para enganar os turistas na região. Mochilas aos pés, pés balançando ao vento (no meu caso exclusivamente). Acabava ali, naquela manhã quente, a doce vida de ter seu dia ditado e guiado desde o amanhecer até o dormir. Recomeçava a aventura. Exatamente ali, na aflição de não saber se vinha o ônibus, se perderíamos o horário, o dia, o navio, a noite.

Estranho era pensar que acordamos num pequeno barco, com delicioso café da manhã pronto, e dormiríamos (será que seria possível dormir? Até então, eu não sabia) num enorme navio, do outro lado do país.

De volta à estrada, de volta às mochilas, de volta à própria conta. Tanto à própria conta que as certezas eram muito poucas, inclusive se o ônibus passaria ou não por ali. Não passou. Pegamos uma carona e fomos parar no centrinho da cidade, onde havia mais informações. Lá, finalmente, o ônibus apareceu. E dali para Lefkada, seis horas de volta a Atenas, mais um taxi para o porto Pireus2. Ao final da jornada – e começo de uma outra, grande também – estávamos embarcados num ferryboat muito maior do que eu jamais imaginaria, em busca de um camarote que compramos, já imaginando, mais de uma semana antes, que nossos corpos estariam moídos demais para viajar numa cadeira de convés3.

E não é que o tal do camarote me saiu melhor que a encomenda? Duas camas em beliche e um banheiro com chuveiro era tudo que eu queria e nem sabia ainda que queria. Largadas as mochilas enfim, era hora de passear pelas redondezas.

Foi quando vimos as cadeiras do convés, os mochileiros de verdade que nelas estavam, as famílias inteiras que por ali mesmo acampavam, o vento, a movimentação do porto, os milhares de outros ferrys que, devargazinho, iam tocando suas buzinas, levantando âncora e deixando lentamente o Pireus em direção ao mar.

Até que foi a vez da nossa buzina tocar. Quase não acreditei no clichê da âncora se levantando, com o barulho de suas correntes se enroscando e uma gaivota do mar em cima de um dos mastros, lá na proa. Enquanto a gente ia se afastando, Atenas era apenas uma cidade branca se tornando pequena, pequena, pequena. Tentamos decifrar naquela miniatura de cidade, os monumentos e ruínas que visitamos. Em vão. Ela foi sumindo e se despedindo de nós.

Se estávamos no encalço de um dos por-do-sóis mais famosos do mundo, na caldeira de Santorini, aquele, no alto mar a bordo do ferry, foi uma espécie de prenúncio dos dias – e seus fins – que estavam por vir. Primeiro ele anunciou, majestosamente em tons alaranjados mil, que ia se deitar. E foi. Vagarosamente, foi se tingindo de vermelho, e mais vermelho, cada vez mais vermelho. No fundo do horizonte reto do mar, parecia um balão, bem redondo e certinho. Até que o balão foi sendo engolido. Primeiro seu polo Sul. Devagarzinho ia desaparecendo, alguns metros (do nosso ponto de vista) antes de encostar no mar. Até que o desaparecimento atingiu todo o hemisfério Sul do corpo celeste. E seguiu engolindo o resto. Simplesmente o vermelho foi engolido pelo branco da névoa do mar, até sumiu no ar. Sem nunca encostar o mar, sem nunca se por.

Num misto de decepção, mágica e estranhamento, entramos para dentro do navio, esperando que o por-do-sol de Santorini fosse tudo aquilo prometido. No fundo imaginando que o que tínhamos visto era todo o espetáculo em si.

Agora era dormir e esperar o sol dar a volta no mar até Santorini chegar.

Dicas para você que ainda vai para lá:
(1)   Resolveu fazer uma temporada pelas Cíclades (Santorini, Mykonos, as menos conhecidas – e não menos sensacionais – Íos e Naxos, além de várias outras) por conta própria? Você tem duas opções: avião ou ferryboat. De avião você vai até os principais destinos numa boa e passagens relativamente baratas. Mas de ferryboat eu, pessoalmente, acho mais romântico. Se for de ferry, não se preocupe em comprar com antecedência de meses. Alguns dias antes, em Atenas, você encontra as passagens e não precisa se preocupar em pechinchar e pesquisar, todas as companhias têm o mesmo preço, tabelado pelo governo. As agências de turismo ficam espalhadas pela cidade e, especialmente, concentradas em torno do grande porto de Pireus.
(2)   Para o Pireus você pode ir de metrô, é o fim de uma das linhas. Mas te digo que o taxi não é caro – pagamos, da rodoviária ao porto, cerca de 12 euros. E tem o conforto dele te deixar já na doca onde será seu embarque. Isso é importante lá, já que é grande e umas são bem distantes das outras.
(3)   Você tem várias opções de ferrys para Santorini (o único que pesquisamos): alguns duram apenas cerca de 5 horas de viagem e saem bem cedo de manhã, chegando em torno de meio dia, ou uma da tarde. Tem o expresso, que dura menos tempo de viagem, mas é mais caro. O que pegamos viajava durante a noite e levava 12 horas para chegar ao destino final, depois de ter feito parada em algumas ilhas no caminho. As opções de acomodação variam entre cadeiras no convés e camarotes com cama. Claro que a segunda opção é mais cara, mas achamos que valia a pena, visto que as condições de se viajar à noite inteira numa cadeira não são nada favoráveis. Aí já é ser bastante mais mochileiro do somos capazes de ser. Algumas pessoas até levavam colchões e travesseiros e se abilolavam em áreas comuns e mais protegidas do que o convés.
Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.
 
Cenas do próximo capítulo: o cenário grego de Santorini.
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