Santa Irene, alva sob o sol

A primeira vez que eu vi Santorini, branca era a cor que pairava. O dia estava apenas nascendo. Mas a história já ia longe no tempo(A). O vilarejo parecia debruçado sobre um beiral, à nossa espera. Como uma namoradeira, que espera e suspira na janela – referência mineira como nós somos. A sensação, no silêncio da manhã (que se fazia só em mim, porque o salão de refeições do ferry boat já tinha toda a agitação comum de um veículo que está prestes a chegar ao seu destino final), era que se a gente chegasse muito perto, fizesse uma movimentação brusca qualquer, ia assustar o pobre bichinho, que amanhecia devagar, se esquentando sob o sol (ainda) fraco da manhã. E assim Santorini nos esperou, espiando lá de cima, debruçada sobre o seu beiral de camadas de pura rocha vulcânica.

Debruçada sobre o mar, à espera de quem vem lá

Eram sete da manhã. Desde quatro, o imenso ferry boat vinha parando nas ilhas que constavam em sua rota. A cada ilha, um anúncio no alto falante, que parecia ter, do outro lado, a professora do Charlie Brown, tão incompreensível era a voz e o que se dizia. A cada anúncio, um pulo da cama. Era o Leandro que jurava, a cada ilha, que era ali que a gente tinha que descer, e já começava a se arrumar. Custei algumas ilhas para convencê-lo de que a nossa era a última, iam chamar por Firá, e que o dia precisava amanhecer antes dela chegar.

Mas chegou, enfim. Junto com ela, a velha preocupação daqueles que viajavam por conta própria: e agora? Como chegar até a pousada, se existe um penhasco entre nós? Escutamos então o chamado do ônibus de 2 euros que levaria até o centro de Firá, tudo que precisávamos. De lá para a pousada… ah, aí era outra história.

A segunda vez que eu vi Santorini, uma ligeira decepção foi o sentimento. A planilha de hotéis que eu tinha em mãos não indicava endereço e nós estávamos perdidos no meio de uma cidadezinha que, à segunda vista, não tinha absolutamente nada de especial ou romântica. Do ponto de vista de onde estávamos, consistia de uma estrada, com pequenas construções de um lado e do outro e nenhuma indicação de para que lado seguir. Para o nosso desespero, eram sete da manhã, todos os mochileiros do ônibus já se encaminhavam para seus destinos e estava tudo fechado. Tudo, menos uma farmácia. Com um pouco de inglês, muitos gestos e uma planilha abençoada nas mãos, entendemos que Santorini era assim mesmo, não usava endereços, apenas o CEP. Parece que o que eles queriam mesmo era que a gente se perdesse e se encontrasse milhares de vezes naquelas ruelas e labirintos até se apaixonar. Mas eu estava com um mochila pesada nas costas e um pouco longe disso – da minha pousada e da paixão por uma ilha que, na minha expectativa, começava a desmoronar. A sorte é que os gregos, deuses e humanos, mais uma vez, nos acolheram. A moça da farmácia se prontificou a ligar para a pousada (cujo número também constava na santa planilha!) e pediu para alguém nos encontrar na beira da estrada, logo depois da loja de aluguel de veículos. Ótimo. Ao voltar o pé para a estrada, o problema era: qual das milhares de lojas de aluguel de veículos?

Na oitava curva do caminho, estava ela. A pousada. Sei que o termo é bem brasileiro, mas aqui, em Santorini, fazia todo o sentido. Não eram hotéis, não eram albergues, eram pousadas, bem parecidas, em conceito, com aquelas em que nos hospedamos no Brasil. Milhares delas, por sinal. A ilha toda parecia feita de pousadas, restaurantes e lojas de aluguel de carros. E algumas igrejas ortodoxas, claro, com seus domos brancos e azuis se sobressaindo na paisagem.

Chegados na pousada e despejadas as mochilas, um breve momento para respirar e entender o redor. A construção, grega, cíclade, típica. Mas rosa, nada de branco. O mar, centenas de metros abaixo. A piscina que, na foto do site, parecia bem maior, mas era simpática e convidativa. O dia que começava a esquentar e demonstrar a que veio. Às sete e meia da manhã, não era possível fazer o check in. Mas dava para deixar as mochilas num canto e passear.

Oito curvas depois, a estrada e suas milhares de lojas de aluguel de carros. Eu ainda não tinha sacado qual era a de Firá. (Firá(1), ou Thíra, é a cidadezinha principal de Santorini. É central, concentra muitas pousadas e hotéis e se interliga a todas as estradas e demais cidadezinhas e praias. Isso tudo eu sabia. Só não tinha ainda entendido a alma santorinense dali.) Até aí, nada poético, como deveria ser. Onde estava a Santorini que eu primeiro conheci, lá embaixo, ainda no ferry?

Foi quando eu vi Santorini pela terceira vez. Do outro lado da estrada, embrenhando algumas curvas para dentro – ou para fora, dependendo do ponto de vista – lá estava ela. *momento para um suspiro* Ela existia sim, em todo o seu branco, em toda a sua atitude e altitude. Em cima da sua rocha, pairava. E era assim, sim, que ela fazia a gente se apaixonar.

Minutos de silêncio se seguiram. Assim como ela, eu também havia me debruçado. No alpendre azul do restaurante estrategicamente localizado de frente para a caldeira e aquela grandiosidade, eu ignorava o garçom que insistia em querer saber qual era o nosso pedido. E Leandro fotografava.

Logo abaixo de nós, os primeiros turistas, vindos dos enormes navios de cruzeiro que esperavam longe no mar, começavam a subir 580 degraus no lombo dos burricos. Claro, eles tinham comprado o pacote todo, e isso incluía os pobres animais. Logo ali, do lado do restaurante, estava a estação do teleférico que subia e descia a encosta íngreme do porto de Skála Firón, dispensando os burrinhos. Mas, obviamente, o bom turista de cruzeiro não dispensa conhecer a tradição do lugar em sua essência, não é?

Não era bom gastar todos os suspiros por ali. Primeiro porque o garçom estava no nosso cangote já. Segundo porque ainda havia muito caminho a percorrer e mais ainda para ver.

Se Santorini parecia debruçada sobre um beiral, no alto de um penhasco, então a gente estava caminhando exatamente ali, onde os braços de Irene (o nome Santorini é uma homenagem dos venezianos que conquistaram o lugar, no século 13 d.C, a Santa Irene), displicentemente cruzados, se apoiavam na moldura da janela, com vista para a grande cratera.

O estreito caminho, àquela hora da manhã só para nós, parecia percorrer toda a ilha, serpenteando e desenhando ao redor das cidades. Era preciso ver até onde isso ia dar, numa ansiedade infinita de conhecer e fotografar cada curva, cada nuance, cada abóbada que surgia na paisagem. Todas diferentes, e sempre iguais.

Leandro fotografava. Eu me debruçava.

Um pouco mais sobre o lugar:

(A)   A ilha vulcânica foi colonizada pelos minoicos, 3000 anos antes de Cristo. Em 1450 a.C. entrou em erupção. Ao afundar, deixou para trás uma ilha em formato de meia lua, em frente a outras três ilhas menores: Thirasia, Palaia Kameni e Nea Kameni – esta última no centro do círculo que se forma ao redor delas. É uma composição que lembra a cratera do vulcão. Dizem que essa é a história do reino perdido de Atlântida, que pode, afinal, estar repousando bem ali, no fundo da cratera. Em 1956, Firá, capital fundada no século 18, foi devastada por um terremoto. Foi reconstruída em terraços nos penhascos vulcânicos, com igrejas em domos e casa-cavernas de teto abaulado (chamadas de skaftá).
 

Dicas para você que ainda vai para lá:

(1)   Existem três locais principais para se hospedar em Santorini: a “capital” Firá, mais ao norte, colada em Firá, está Imerovigli e na ponta norte da caldeira, Oía.
(2)   Firá tem dois lados, literalmente. Dividida pela estrada que percorre a ilha de norte a sul, um lado é voltado para a cratera e o outro é voltado para as “costas” da ilha. Existem hotéis e pousadas dos dois lados e é possível ter vista para o mar tanto de um lado quanto do outro. É claro que os que ficam voltados para a cratera têm a vista mais bonita e cobram mais caro por isso. Conceitualmente, um lado é a cidade com recursos do tipo aluguel de carros, linhas de ônibus, estradas que saem dali para diversos pontos da ilha, lanchonetes (para variar dos restaurantes caros), cyber cafés, lojas mais diversificadas e bares com vida noturna; o outro lado é a romântica visão que se espera de Santorini, quanto mais se chega perto da caldeira, mais as construções vão ganhando aquele ar grego que povoa o nosso imaginário.
(3)   Já ficar em Oía é mergulhar na tal visão romântica. Sem estrada ou lojas que quebrem o clima do lugarejo, você fica perdido entre ruelas e construções típicas, e sempre vai acabar encontrando o mar e a indefectível vista para a caldeira. As pousadas e hotéis aqui são mais caros, mas também mais charmosos. Para quem não quer agitação e espera um passeio totalmente no clima romântico, essa é a pedida.
(4)   Imerovígli é praticamente a continuação de Firá, com mais locais para se hospedar além dos limites da “capital”.

Quer mais dicas? Mande um comentário. Com o maior prazer, buscarei anotações, mapas, guardados, impressos ou memória. Se eu souber, passo adiante.

Cenas do próximo capítulo: Santorini, rodas para que te quero – o nosso Seicento, o que fazer, o que ver, para onde ir e, principalmente, onde assistir ao famoso pôr do sol.

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