Conhecer a Terra

Tankwa Karoo National Park, South Africa © Karin Schermbrucker/National Geographic Traveler Photo Contest

No primeiro dia de 2012, eu tomei uma decisão. Não que tenha sido grande ou realmente decisiva. Mas eu tomei uma decisão. E mantive ela desde então. Eu ia fazer pilates. Sabia que era necessário e era chegada a hora.

Escolhi local e horário. Encarei o preço. Comecei. Decidi ser ainda mais radical e tomei outra decisão: caminhar de casa até o pilates, nas duas vezes por semana que havia aula. 25 minutos para ir e 25 minutos para voltar. Minha médica ficou orgulhosa, como era de se esperar. E eu esperava que isso me desse ânimo para fazer ainda mais.

Ionian Islands, Greece. Photo: Leandro Neves/Muito Além da Fronteira

Enrolei isso tudo até aqui apenas pela graça de chegar a um pequeno detalhe da história: o caminho. A primeira vez que saí de minha casa em Santa Tereza e caminhei até lá, optei por um caminho mais plano, mas que podia ser mais perigoso. Atravessar um viaduto, por cima de um rio e de uma linha de trem, cortar pela zona hospitalar, dobrar esquinas onde dormem mendigos e marginais. Nada disso me era familiar. A ideia então era simples. Colocar uma pequena mochila nas costas e fazer exatamente como eu faria se não estivesse em minha própria cidade.

Estranho isso, não? Sentir medo da própria cidade, quando se é capaz de fazer o mesmo, ou muito pior, em lugares do mundo que simplesmente não conhecemos. Eu pensava em tudo isso enquanto atravessava o viaduto e sentia a mochila batendo nas costas assim como já senti quando atravessei outras pontes, em tantos outros lugares. Enquanto seguia por uma avenida movimentada da área hospitalar, em frente à Santa Casa e toda a variedade de mazelas humanas que estão ali, respirei fundo por um momento e, de olhos fechados, lembrei da Bolívia. Como La Paz era capaz de me trazer menos temor do que a minha própria cidade?

La Paz, Bolivia. Photo: Leandro Neves/Muito Além da Fronteira

Seria o que eu conheço sobre mim e sobre a minha cidade que me faz assim? Ou o que desconheço sobre todos os outros e todos os lugares? Seria o sentir que faço tanto parte de um lugar, que não sou capaz de perdoar seus defeitos? E ainda aceito-o como é, amando-o e temendo-o, até que a morte nos separe? Ou o mundo nos separe?

Prefiro que o mundo nos separe. Não definitivamente, claro. Mas que a separação saudável e natural faça crescer em nós, minha cidade e eu, as perspectivas reais sobre o tamanho que as coisas verdadeiramente têm. Para que cresça também o sentido e a relevância que cada coisa deve ter em minha vida, minha mente, meu coração, minha alma, meu tempo.

Istanbul, Turkey. Photo: Leandro Neves/Muito Além da Fronteira

E no meio desse caminho não tinha uma pedra. Tinha um recado. Foi na vitrine de uma loja que eu vi. Tudo que eu li foi: “Não deixe a Terra sem antes conhecê-la.” A verdade é que, alguns dias e caminhadas depois, eu percebi que o recado inteiro era: “Jesus. Não deixe a Terra sem antes conhecê-lo.”

Jeronimos Monastery, Belem, Lisbon, Portugal. Photo: Leandro Neves/Muito Além da Fronteira

Nada contra Jesus, muito antes pelo contrário. Mas prefiro ficar com a minha primeira versão. Acredito, sim, que não podemos deixar esta vida sem conhecer Jesus. Mas acredito mais ainda que não podemos deixar este plano terrestre sem conhecer Buda, Maomé, Shiva, Oxalá e todas as milhares de formas, histórias, mitos e fé que construíram este pequeno mundo azul em que vivemos. E também as montanhas, os lagos e mares, as construções e desconstruções, as obras, as cores, os animais, os cheiros e os sabores. E as pessoas. Essencialmente as pessoas, que constroem e desconstroem todos os dias os pedaços de mundo e de história que conhecemos e desconhecemos.

Inca trail looking over Urubamba river, Peru. Foto: Leandro Neves/Muito Além da Fronteira

Não, eu não posso deixar a terra sem antes conhecê-la. Nem a terra que me criou, andando pelas ruas do meu lugar, nem a terra que outros criaram por mim, andando pelas ruas desse imenso mundo afora.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Celme disse:

    Fantástica a forma como vc escreve e associa uma coisa com a outra com leveza e harmonia! Beijos

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