Meio dia em Manaus

Quando a voz metálica cortou no ar a entorpecência da penumbra da cabine e despertou da sonolência provocada pelo artificial do ar, eu procurei pela janela os sinais de água. No negrume lá de baixo, um pouco mais denso do que o de cima, alguns filetes ainda mais escuros cortavam o nada. O nada, no caso, era o que eu vinha observando na última hora, sem ter muita sorte em encontrar algo. O nada, no caso, era a Amazônia e eu era só ansiedade em enxergá-la.

Quando a voz metálica avisou que nos aproximávamos do destino, encontrei na vastidão lá de baixo um filete mais corpulento. A ansiedade de enxergar ficou mais intensa, crente que estava diante do Amazonas em si. Puro engano. Mais um pouco e a vastidão de mata negra deu lugar a uma imensidão de água, essa sim, de encher o peito de tanto enxergar. Algumas luzinhas enfeitando as beiradas e um sobrevoo no que parecia ser só água, água, água denunciavam que Manaus estava pra chegar.

(Nota: até então, eu acreditava piamente estar enxergando o Amazonas. Só dois dias depois eu entendi que aquele era o Rio Negro. Perdoem o erro geográfico de principiante em Amazônia.)

Algumas vezes na minha vida levemente errante ouvi uma pergunta, quase indignada, sobre como ser brasileira e não conhecer a Amazônia. Eu sempre respondia a meu caro amigo estrangeiro que a Amazônia não fica no quintal da minha casa, ora! Seria como querer que todos os norte americanos conhecessem o Alaska, ou os sul-africanos o Saara. Pois então. Numa determinada ocasião, no entanto, tive a oportunidade de conhecer a Amazônia boliviana, num passeio que saia de La Paz, onde eu estava, e, poucas horas depois, adentrava a mata. Não, não fui. Primeiro porque o tempo era curto e as outras coisas a fazer muitas. Segundo porque tive um sentimento meio bairrista de que, se era pra ver a grande e poderosa floresta tropical, tinha que ser em casa, no Brasil. Compreendem agora os paradoxos nos quais eu me emaranho?

Surgiu, então, uma brecha (pequena, na verdade, daquelas de ter que se esgueirar para caber) de oportunidade. Acompanhar as filmagens de um vídeo que eu roteirizei, durante um dia inteiro, em Manaus. O cronograma era apertado. Um dia, bem de noite, para chegar, um dia para gravar, um dia para voltar. E eu não conheceria nada além da fábrica da empresa, as ruas caóticas de trânsito e a floresta escura da janela do avião? Talvez sim, porque me sobrava exatamente metade de um dia em Manaus para estar cara a cara com a floresta.

O dia para filmar não concedia espaço para muito. O café da manhã no hotel não me disse quase nada e poderia ter sido servido em São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre (Brasis tão diferentes e ainda Brasis) que daria no mesmo – uma decepção para quem espera frutas e frutos e iguarias típicas de uma região tão rica. Encontrar a equipe, atravessar o trânsito meio absurdo de Manaus e chegar à fábrica. Gravar, almoçar no refeitório, ouvir a chuva tropical, intensa, bater nas telhas e esperar passar até poder ligar a câmera novamente. O escape para a realidade local surge nas conversas com a equipe: dois cariocas, o Thompson e o Cléber, que se estabeleceram em Manaus (conheça o trabalho do Thompson aqui), pela oportunidade incrível de estar junto a um dos lugares mais férteis do mundo para se contar histórias em imagens e sons, e um nativo, que se autodenominou caboclo, provavelmente por ter grande parte daquela mistura fina (da qual todos temos um pouco) de índio com branco. Sem esquecer um belorizontino, como eu, que gerencia a fábrica onde gravávamos, e me deu uma visão sua do que é largar BH para viver ali.

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Um nativo

Reldson, o caboclo que cuidava do som, é um apaixonado pela própria terra (e quem não seria?). De poucos em poucos minutos, me bombardeava com perguntas eufóricas: tu já provou isso, tu já viu aquilo, tu conhece a floresta? A cada resposta negativa, crescia a vontade de me mostrar todas as coisas. A cada resposta positiva sobre o que eu queria conhecer e provar e ver e fazer, havia uma promessa de me levar lá. Deixei tudo isso embalar nossa conversa, mesmo sabendo que não haveria tempo para tanto.

Ficou então combinado: depois das filmagens, todos para o largo do Teatro Amazonas, para uma cervejinha merecida. Para tentar encaixar mais vistas e experiências no trajeto para o teatro, antes que o sol fosse engolido pela mata no horizonte – e para fechar bem o meu primeiro dia em Manaus – a moto do Reldson (comigo na garupa) foi cortando o trânsito até chegar na Ponte Rio Negro. Mais de 1 bilhão de reais para pouco mais de 3,5 quilômetros de travessia do Rio Negro. Afinal, é a maior ponte fluvial do Brasil e a segunda do mundo. Para tanta importância, eu esperava um trânsito digno de tudo que eu já tinha enfrentado na cidade. Que nada. Podendo ziguezaguear livremente entre todas as faixas de cada mão da ponte, a moto cruzou a estaiada num instante. (Mais cedo perguntei de onde até onde a ponte tão cara levava. A resposta foi: Boa pergunta! ….) Pronto, agora pelo menos uma coisa eu podia dizer que conhecia: a vista do Rio Negro e do horizonte em Manaus, a partir da afamada ponte.

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Ainda passeamos mais, para mais e melhores vistas do Rio Negro, da cidade e da confirmação de que, da exuberância da floresta tropical, a cidade de Manaus tem pouco. Mas dá para se divertir. Imagem

E foi o que fizemos, a largos risos e cerveja abundante, no bar do Armando, bem situado no largo em frente ao teatro. Não sem antes dar um check em duas atrações manauaras: o teatro (que infelizmente só vi de fora – ficou pra próxima, quem sabe com a orquestra tocando?) e o tacacá, saindo fervendo da panela (quem diria, nesse calooor?) para me fazer suar em bicas… e adorar – enfim, um sabor da Amazônia.

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E o bar do Armando só enchia. Figuras de todos os tipos – artistas, escritores, músicos, políticos, prostitutas, o pessoal do vídeo… E que figuras! Ali eu soube que uma boa parte da história recente de Manaus (a do século XX, não a do período da borracha) se passou na frente dos olhos do português Armando. Ali as figuras incríveis dessa cidade se conheceram e se reconheceram. Ali eu conheci um pouquinho dessas figuras, que estão pensando, fazendo, projetando, pessoas que querem mais para esse lugar. E é claro que todo mundo se conhece melhor ainda com uma boa cerveja gelada na mão. Pois foi isso que fizemos.

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O Nativo

Antes de partir,  me restavam algumas horas em Manaus. Meio dia, para ser mais exata. Mas, tanta coisa para ver, tão pouco tempo para viver… Eu tinha que ser objetiva. Decidi que queria ver o encontro das águas dos rios Negro e Solimões. Sempre achei algo de surreal e mítico naquela linha perfeita traçada entre os dois rios de cores diferentes.

Reldson disse que me levaria na sua moto. Às sete e meia da manhã, que era para não perder um minuto precioso de tempo. Eu disse que estaria pronta, sou muito profissional nessa coisa de ser turista. Às oito e quinze ele não tinha aparecido ainda. Sem titubear, peguei o papelzinho onde eu tinha anotado um número de telefone. Muitíssimo recomendado, esse número pertencia ao melhor guia de toda a Amazônia, segundo o Thompson, o diretor das imagens gravadas no dia anterior.

Dudu Nativo apareceu prontamente na porta do hotel. Sem demora (a não ser pelo trânsito típico) me levou até o Ceasa, de onde sairia uma pequena embarcação – a voadeira – para nos levar ao meio do rio. Ou dos dois rios. Ou à terceira margem dos rios (como já nos contou Guimarães Rosa sem, no entanto, se referir a essa ondulante e misteriosa margem amazônica)…

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A gente ia pelo Rio Negro (foi quando eu aprendi…), aquele negrume de água todo abaixo de nós. Um tempinho, coisa de cinco minutos, e comecei a ver que a água logo ali na frente era de outra cor. O barquinho foi desacelerando, já sem o barulho forte do motor. Nativo me pediu para colocar a mão na água para sentir o justo momento da passagem na pele. Era meu pequeno ritual de iniciação no encontro das águas. A mão na água, mais ou menos fria, bem negra, atravessa assim a linha perfeita entre as cores. Naquele exato instante, a água esfria, amarronza, é a mesma água, mas é outra água. Diz o Nativo que também são outros peixes, outras plantas, outro pH, outra vida. Ele conta porque as águas não se misturam, o porquê biológico, o natural, o mítico. Ele fala sobre a guerra de titãs que essa linha, nada tênue, representa: um rio não engole o outro, o outro não alimenta o um, um rio não se sobrepõe ao outro, o outro não é mais forte que o um. Eles são guerreiros de igual força, tamanho e poder. Por isso seguem juntos, lado a lado. E é assim até o fundo de tudo, é assim por um bom caminho adiante.

(o encontro das águas em vídeo)

Com o motor desligado, o barco ficou flutuando na “terceira margem dos rios” por um tempo, equilibrado na linha entre o yin e o yang da Amazônia, a harmonia completa entre as duas forças, me dando um tempo para absorver

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De volta ao Rio Negro, a voadeira passeia por largas avenidas de água, que servem de endereço para casas flutuantes e seus quintais, seus varais, suas crianças (que podem crescer sem aprender a andar de bicicleta, mas sabem nadar entre os peixes), suas canoas.

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A pequena vila aquática tem escola e uma voadeira escolar, tem igreja, tem comércio. Foi num comércio desses – pra turista ver – que eu participei da pescaria mais louca da minha vida. Com um peixinho amarrado num anzol, o desafio era levantar da água (porque tirar era impossível) o maior peixe de água doce da América do Sul, um pesadíssimo pirarucu. Quando o peixinho no anzol chegava perto da água onde estavam os pirarucus, a excitação era tanta (minha e deles) que acabei perdendo uns dois peixinhos, quando o peixão foi mais esperto que eu. No terceiro peixinho, consegui levantar ½ pirarucu da água. Não sem gritaria, espirros d’água e  gargalhada.

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Perguntei pro Nativo se aquelas pessoas que viviam ali eram pobres. Pergunta ingênua, quase boba. De forma alguma, foi a sua resposta. Você já viu alguém que vive numa boa casa, de frente para a água (e que água!), comendo do bom e do melhor ser pobre em algum lugar? – ele arrematou.

No caminho de volta para o hotel, falamos sobre tantas coisas que preciso de tempo e um novo papel em branco para te dizer quantas. Sobre a história dele, a história da Amazônia, do turismo na Amazônia, do turismo sustentável… enfim, muito pano pra manga. Esse é um fio de meada que eu, em breve, vou pegar, e a gente vai ver no que dá. Aguardem.

As minhas poucas horas em Manaus me renderam tanto, que me pareceu uma nova vida. Amizades, planos, desejos de novos estudos e muitas viagens por fazer. Faltava uma coisa, no entanto. Quando eu disse que ia pra Manaus, não teve viva alma que já esteve lá que não me dissesse a mesma coisa: tem que comer costela de tambaqui assada na brasa. O Nativo me sugeriu o melhor restaurante que ele conhece (bem típico, sem frescuragem de transformar tambaqui em cozinha estrelada internacional), mas não podia ir comigo, tinha outros turistas para guiar.

Sem uma sombra de dúvida, peguei minha mala, entrei no taxi e mandei tocar para a Morada do Peixe, onde morava o tal do tambaqui. De lá para o aeroporto, direto. Mas eu não podia ir embora sem comer o peixe.

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A costela (que é o peixe aberto no meio, com uma das bandas servida de deliciosa carne branca e suculenta) do tambaqui vinha com baião de dois e um molho amarelo que eu aprendi a amar, o afamado tucupi. Enquanto eu comia, lia a reportagem da revista da Gol com Alex Atala e os irmãos chefs de Belém – e sonhava com esse destino também – e via os mesmos ingredientes e sabores aqui e lá. Quem vem, então, me cumprimentar? Dudu Nativo, em pessoa, meu novo amigo, que não resistiu e trouxe os novos turistas para comer o peixe irresistível.

Quem encerrou meu almoço e também minha curta e deliciosa visita foi a chuva. Naquele último dia de fevereiro, enquanto as águas de março não vinham fechar o verão no sudeste, as águas do “inverno amazônico” fecharam com chave de ouro minha experiência manauara.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Franklin Thompson Jr. disse:

    Luísa,

    Adorei o blog, a crônica, ter te conhecido e a honra da citação. Parabéns e muito obrigado. Um abraço. Thompson.

  2. Thompson disse:

    O Nativo é realmente uma figura incrível e, acreditem, excelente comunicador e apresentador de tv. Conheçam um pouco mais dele nesse canal do Youtube:
    http://www.youtube.com/channel/UCD3RGni3kdg7cRwb08N5odA

    1. Luísa Rennó disse:

      O Nativo é incrível! Em breve vou postar mais coisas sobre ele e sobre as ideias que ficaram na cabeça depois do nosso encontro. Abs!

  3. Marcelo Marques disse:

    Belo texto 🙂 E vendo as fotos, senti ainda mais saudades de casa. Amo meu Amazonas!

  4. Celme disse:

    Amei o texto e sua forma gostosa de contar cada detalhe de suas experiências de viagem.Bjs

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