Cada lugar, muitas faces, mil versões da vida

Tentando entender a negativa dos colombianos ao acordo de paz, caí num artigo em que o jornalista (brasileiro) fazia considerações baseadas na sua passagem por Medellín, em meio a esse tumulto que acontece nas ruas de lá. Uma de suas fontes foi o vigia de um parque turístico. Sempre gostei de fontes despretensiosas, que falam sobre o dia a dia, sobre as ruas e os bairros, sobre as manchetes nos jornais das bancas que mais chamaram atenção – mesmo que não seja possível, para esses cidadãos, ler todos os jornais, ou conhecer a fundo a política interna ou o X da questão econômica.

 

Fiquei pensando em Maria e Sérgio. Conheci os dois colombianos há quase 18 anos, nos EUA. Eram meus companheiros de intercâmbio. Sergio, filho de militares, tinha as roupas impecavelmente dobradas e guardadas na mala, durante os 10 meses que passou lá. Em alguns poucos dias que passei hospedada em sua casa americana, ele andava atrás de mim lustrando cada móvel que eu encostasse e recolhendo (e lavando) copos que eu nem tinha acabado de usar. Ainda assim, e apesar do meu ser um tanto quanto desorganizado, ficamos amigos. Já com Maria foi amizade à primeira vista. Podíamos falar por horas a fio, numa língua que acabou virando só nossa, mistura de inglês, português e espanhol sem papas na língua. Éramos tão parecidas, mas tão parecidas, que as nossas famílias conseguiam nos confundir, e ríamos dizendo que éramos gêmeas nascidas em países diferentes (o que, para um americano mediano, poderia ser um mistério, já que muitos mal conseguiam distinguir o Brasil da Colômbia). Me perguntei hoje se Maria ainda se parece comigo, se pensamos igual e no que ela está achando dessa história toda. Será que Maria ao menos votou? E Sérgio, o meticuloso filho de militares? Deve ter votado Não. Mas nunca saberei.

 

Eles falavam, sim, da vida na Colômbia, de cidades como Cali e Bogotá, do mar caribenho, da floresta Amazônica (o que me dava um certo ciúme…), da falta que sentiam das frutas tropicais. Mas nunca de política ou das FARCs ou da guerra civil ou do tráfico. Éramos muito jovens para isso.

 

O que não me impediu, em outros momentos, de saber de detalhes horríveis de outras guerras e de outros lugares. Na escola que frequentei, filhos de imigrantes e refugiados da Bósnia, do Vietnã, da Somália, Etiópia e Eritreia e até mesmo do Iraque e do Afeganistão (antes do 11 de setembro e mesmo antes da captura de Saddam Russein) me contavam sobre suas vidas deixadas para trás e sonhavam com casas que não existiam mais. Foi de uma menina da Somália que eu descobri o que as classes médias comiam antes de fugir da fome. De uma amiga do Vietnã, soube que seu pai e muitos outros vietnamitas fugiram escondidos em navios para os EUA, deixando famílias para trás que só naquele momento, 15, 20 anos depois, iam ao seu encontro. O que mais me tocou fundo foram as histórias do meu amigo bósnio. Histórias de campos de concentração, de estupro de mulheres na frente das suas famílias, de fuga no meio da noite, de meses passados escondidos em celeiros na Europa. São muitas as cicatrizes de uma guerra. Qualquer que seja a guerra, seus motivos, seu tamanho, sua localização.

 

A esses lugares eu nunca fui, mas ainda gostaria de ir, conhecer as belas paisagens de que me falavam com olhos carregados.

 

Depois dessa experiência, me acostumei a ver mais as pessoas de cada lugar por onde passei. Ver, escutar, tentar entender. Imaginar, por uma historinha contada aqui, uma opinião ali, um debate acolá, como é a vida naquele pedaço de mundo.

 

Em Cuba, um debate acalorado com um estudante que servia de guia para turistas italianos com quem esbarramos, me mostrou como a discussão política pode ser cheia de paixão naquela ilha. Em outra ocasião, mas na mesma ilha, não teve tanta paixão, e sim um misto de tristeza e de conformismo quando um guia (outro, mais um) me contou porque largou uma carreira de pesquisa em biologia, com mestrado e um doutorado bem próximo de concluir, para guiar gringos pelas belezas caribenhas de sua ilha. Um falou dos ideais revolucionários, o outro, dos dólares contrarrevolucionários. Ambos amavam igualmente o seu país. E, mesmo que não amassem, naquela época, não podiam deixa-lo.

 

Quantas vezes é preciso, além das paisagens, dos museus, dos marcos arquitetônicos e históricos, conhecer pequenas histórias que acontecem no dia a dia, dentro de paredes nem tão interessantes assim?

 

Cuba mostrava seus contrastes, suas riquezas e mazelas, todas escancaradas aos nossos olhos. Você vê todas elas o tempo todo, quer queira ou não. Em outros lugares, as questões e os debates estão por trás de grandes cenários de beleza, organização, desenvolvimento. Mas eles sempre existem.

 

No Canadá, o país mais desenvolvido (em diversos aspectos, muito além dos econômicos) que conheci até hoje, presenciei um debate sobre a situação dos descendentes das Primeiras Nações, os povos indígenas locais. Uma das moças defendia que eles devem ser ajudados, sim, com o que, no Brasil, chamaríamos de “bolsa”. Ri sozinha pensando em quantas pessoas a chamariam de petralha disfarçada de canadense. Mas foi essa mesma moça que me ensinou um conceito que nunca mais consigo dissociar da minha ideia de Canadá e da admiração que tenho por eles. Ela me explicou que, enquanto nos Estados Unidos, a mistura de povos e culturas é chamada de “melting pot”, no Canadá ela pode ser considerada um “mosaic”. A grande diferença é que, no primeiro, a panela está em plena ebulição, ou seja, muito calor e algum sofrimento são necessários para que o derretimento e as misturas aconteçam. Algum ingrediente sempre sairá perdendo seu sabor e seu valor nessa receita. No mosaico, todas as cores e texturas colocadas permanecem com suas características originais. Mas a junção de todas elas – lado a lado e não se misturando em ebulição – conforma uma imagem única, harmônica.

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Foi um outro canadense que me colocou na posição contrária: a de dizer o que eu acho, pelas minhas experiências, ao invés de questionar o que ele acha. Ele ama o Brasil. E nos conhece razoavelmente bem. Em uma recente visita à nossa terra, ele passou uns dias com um amigo no Rio. Um cara, até onde eu sei, de direita, que acreditava que o impeachment da presidente eleita era a única solução para o Brasil. Logo depois ele veio me visitar. Quis saber minha opinião – que é exatamente contrária à do outro. Tão difícil, mas tão difícil, explicar, sem poder complicar demais, mas também sem simplificar para não banalizar, dando os devidos valores aos diversos lados, senões e fatores interferentes… Passamos alguns dias conversando ao vivo e depois mais outras vezes por whatsapp. Posso ter fundido a cabeça dele com a complexidade dos nossos assuntos domésticos e das nossas opiniões particulares e confusas sobre tudo isso que é o Brasil e o que acontece nesses lados de cá do mundo. Mas desconfio que se, ao sair de um país, tenhamos mais dúvidas sobre tudo que ele é do que certezas, é porque a visita foi verdadeiramente proveitosa.

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