Lições de uma avó viajante

Eu tinha 19 anos e iniciava o curso de Comunicação, ainda achando que ia ser uma jornalista. Vovó me chamou no canto e disse que queria me contratar para fazer uma reportagem. Hã? Mas não uma reportagem qualquer, e sim uma reportagem sobre as ruínas na Cartago, na Tunísia.

Veja: vovó Dalva tinha um invejável currículo com 63 países. A maior parte deles executado com amigas, em excursões, já que vovô Júlio se sentia melhor em casa do que batendo perna pelo mundo – além de casa, em Belo Horizonte, vovô gostava mesmo era de seu sofá no Rio de Janeiro, de onde se levantava para ir passear no calçadão de Copacabana, sentar num banco e observar as pessoas passando (por isso, sempre que vejo a estátua de Drummond fazendo a mesma coisa, não consigo deixar de sorrir e pensar que é o vovô ali). Então, ela queria acrescentar o 64o país à sua lista: a Tunísia, no norte da África. E queria levar sua neta mais velha junto, com o suposto pretexto da tal reportagem (piscadinha furtiva).

Confesso que tive que olhar no mapa onde ficava a Tunísia e pesquisar sobre as ruínas de Cartago. Ainda não tínhamos wikipedia, mas tínhamos muitas (muitas!) enciclopédias na biblioteca da vovó e eu descobri uma lenda sobre Cartago que me fez, pela primeira vez, realizar duas coisas que ainda faço muito (eu diria até que são dois vícios): comprar um livro pela internet e ler/levar um livro (vários às vezes) cuja história está relacionado ao lugar que visito. Vovó nem acreditou quando a embalagem chegou pelo Correio, com um livrinho dentro e um cartãozinho que dizia ter sido um presente meu. “Mas, como?!?” Ela me perguntou pelo telefone imediatamente depois.

Se esse foi um estranho destino a conhecer, com apenas 19 anos e tendo visto apenas um outro país na vida, além do Brasil? Talvez sim. Mas acredito que não pensei sobre isso então. E sim fiz conjecturas, sonhos e pesquisas. Mirabolei histórias mil sobre essa viagem e as coisas inimagináveis que nós veríamos. Ruínas de uma civilização tão antiga, o mar mediterrâneo, uma sociedade muçulmana, com suas mesquitas e seus mercados, sedas, pratas e especiarias, os camelos, o Saara! Ah sim, a gente também veria Paris e Amsterdã e todos os encantos que fazem sonhar os viajantes de qualquer espécie. Mas a conversa antes de ir girava mesmo em torno do destino exótico e da piada do meu avô, de que minha avó poderia me vender no mercado por dois camelos e um dromedário, que ele colocaria na praça para as crianças brincarem e ele fazer dinheiro. Mais tarde fui descobrir que essa piada é, na realidade tunisiana, uma espécie de cantada (que eles sabem dizer em tantas línguas quanto for preciso) e que eu “valia” muito, muito mais do que meu avô brincava. “Mama, mama, mil camelos por la donzela!”

Eu e o camelo (ou dromedário, ou sei lá), no deserto do Saara. Não, ninguém quis me trocar por ele, afinal de contas.
Eu e o camelo (ou dromedário, ou sei lá), no deserto do Saara. Não, ninguém quis me trocar por ele, afinal de contas.
D. Dalva (de verde, sentada à esquerda) não quis se arriscar em cima do camelo. E foi confortavelmente instalada numa charrete.
D. Dalva (de verde, sentada à esquerda) não quis se arriscar em cima do camelo. E foi confortavelmente instalada numa charrete.

Minha avó me ensinou muitas coisas nessa única viagem que fizemos juntas. A primeira delas foi de que nenhum destino deveria ser desprezado. Desde então, absolutamente todos os lugares no planeta que há para ir, eu iria. Não existe um que eu possa dizer: lá eu não quero ir. Claro que alguns mais, outros menos, alguns entram na bucket list e outros estão no aguardo. Outros ainda, fico esperando o tempo virar, já que a tempestade – política, econômica, religiosa, de guerra, fome ou de miséria – pode deixar o mar do navegador perigosamente agitado.

Já em Paris, com mais uma integrante no pequeno grupo de duas – minha prima Joana estava morando na Holanda e foi nos encontrar para a parte europeia da aventura – brincamos com vovó sobre o próximo país que ela conheceria. Na sua vasta lista de carimbos no passaporte, custamos a encontrar um que ela não conhecia. Achamos a África do Sul. Pois bem, é pra lá que nós três vamos, na próxima viagem. Misteriosa, D. Dalva respondeu: l’année prochaine. E ria da nossa cara de interrogação – vovó sempre ria nessas ocasiões, uma risada só dela que consigo reproduzir na minha cabeça, mas não conseguiria fazer ninguém mais entender, talvez um dos seus outros 16 netos. Nós íamos quando eu e Jô soubéssemos o que significava a expressão em francês. Estávamos na fila para comprar ingressos no Louvre e saímos procurando alguém que soubesse as duas línguas para nos traduzir. “No ano que vem”. Então tá, no ano que vem a gente tem um compromisso marcado.

Vovó nos fez prometer viajar o mundo, seguindo seu exemplo. Eu brinquei que não tinha a menor dúvida, mas que além do exemplo, a gente também precisava de dinheiro pra viajar. Ela deu de ombros e disse que essa parte sempre se arranja. Até hoje eu continuo acreditando nisso. Não que eu ache que as pessoas devem viajar com um dinheiro que não têm. Mas, querendo, há de se arranjar o dinheiro certo para a viagem certa. Nem muito, nem pouco, o tanto certo. Dá para planejar bem, dá para guardar um pouquinho de cada vez, dá para mexer naquela poupança, dá para variar os destinos e optar por algum mais barato dessa vez… enfim, sempre dá.

Ainda em Paris, aos pés da torre Eiffel, vovó olhou para cima, olhou para mim e disse: sabe, Luísa, nós não vamos subir lá não, tá? Antes mesmo que eu me mostrasse desapontada, ela completou: sabe o que é? Eu já fui várias vezes, a Joana já foi e você ainda vai voltar aqui muitas vezes, vai poder subir numa próxima. Assim, quase sem querer, minha avó me ajudou a enfrentar muitos outros destinos pela frente. Em Roma, foi quando eu parei para pensar sobre aquele dia, oito anos antes. Havia tanto para fazer e conhecer e experimentar e apenas quatro dias, no fim de uma cansativa viagem, que eu não tinha tantas forças para sair correndo desvairadamente pela cidade e conseguir cumprir todo um cronograma de turista. Pois Roma não é a cidade eterna? Como eu ia conseguir em quatro dias desvendar a eternidade? Assumi, então, que eu ainda ia voltar ali, não precisa fazer tudo dessa vez. E descobri que muitas outras cidades são eternas assim, impossíveis de conhecer plenamente, ainda que se tenha a eternidade – o que a gente nunca tem. Paris, Nova York, Londres, Istambul, Barcelona… não, não dá para matar todos os seus coelhos numa cajadada só. Entender que não é preciso fazer tudo e conhecer tudo e correr loucamente e subir em todas as torres eiffels pela frente, simplesmente porque você sempre poderá voltar e conhecer mais um pouco, dá uma sensação indescritível de paz com o seu turista interior. Mesmo que você nunca volte naquele lugar. “Um mistério sempre há de ficar por ali…” (em tempo: quatorze anos depois e ainda não subi na Torre Eiffel. Não tem problema, eu vou voltar.)

Quando nós três voltamos dessa viagem, eu e Jô começamos a planejar a conquista da África do Sul. A vovó queria mudar um pouco os planos e a gente até topava – não interessa tanto o destino, o importante é viajar, não é? Mas poucos meses depois, vovô Júlio adoeceu e a vovó Dalva nunca mais viajou.

Certa vez, ouvi uma frase solta por aí que me marcou muito. “A gente começa a envelhecer quando nossas lembranças e memórias começam a ficar maiores do que nossos planos e desejos.” Acho que a vovó envelheceu no minuto que deixou de planejar seu próximo destino. Foi por muito amor e tenho certeza que ela não se arrepende nem por um segundo de ter estado ao lado do seu Júlio até o dia em que ele morreu, mais de uma década depois disso. Mas sei que algo se transformou dentro dela no dia em que todas soubemos que não haveria mais viagens. Enfim, todos envelhecemos um dia, não há o que fazer.

Por algum tempo, vovó ainda contou suas inúmeras histórias de viagem, com muitas nuances romanceadas por ela e seu famoso “mundo cor de rosa de Dona Dalva”. E eu sei quantas nuances podem ser depois que viajei com ela. Me arrependo muito de não ter realizado um plano que tinha na cabeça: anotar tudo e escrever um livro com suas memórias, mesmo que bem fantasiadas – o que só daria um tempero extra para a narrativa. Aos poucos, as histórias foram se apagando, apesar de eu achar que as memórias ainda estão lá, bem intactas. Mas tinha uma história que ela ainda gostava de contar (várias vezes) sempre que me encontrava, em tempos recentes de fracas lembranças. Era sobre como ela me surpreendeu quando chegamos à Tunísia. No dia anterior à viagem, eu saí com amigos para beber cerveja, pensando que ia ficar vinte dias sem poder beber ao lado da minha avó. Mas, chegando lá, ela logo veio: Luísa, vamos tomar uma cervejinha? Faz tanto calor aqui…

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